1990 de desporto

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círculo virtuoso:1990

rádio independente de aveiro

1.

bola mole em pedra dura

Formei uma equipa, ainda era puto. Treinávamos os nossos pontapés-martelo e a resistência das cabeças contra a parede da garagem de um puto mais rico. Umas vezes jogávamos com bolas de trapo e meia, outras  com pedras da calçada, com moedas e com os botões que arrancávamos da blusa da farda da mocidade. Quase  mandámos o muro abaixo e na altura lembro-me bem como não fomos compreeendidos.

Hoje ressuscitam-se os nossos antigos procedimento para deitar abaixo muros de Berlim. E, por isso, consideramos que fomos reabilitados. Podemos voltar a falar da habilidade de disparar feijões pelos dois canos do nariz.

2

massagista cristão, árbitro moiro

Outra vez tentei ser massagista de uma equipa de mouros que a nossa equipa de cristãos defrontava numa trégua estabelecida para afiar as navalhas de ambos s lados. Fui acusado de lesionar gravemente a ponta de uma lança ou um ponta de lança e dei origem a combates mais sangrentos do que aqueles que travávamos em defesas das refectivas fés e impérios.

Entre as condições da nossa rendição uma cláusula estabelecia que os cristãos deispensavam os meus serviços de me entregava para ser supliciado pelos infiéis.

Felizmente que estes não fizeram nada disso e me tomaram ao seu serviço para ser árbitro em jogos entre as selecções dos países irmão na fé, mas inimigos no futebol.

Fui também treinador de uma equipa de camelos. Em pleno deserto, ensaiámos algumas das tácticas que chegaram até aos nossos dias de ouro do futebol americano. Ainda agora, seguindo esse antigo exemplo, todas as armas secretas são ensaiadas no deserto.

Assisto a tudo isto, com a indiferença  característica dos pioneiros..

3

escuar por ali abaixo

Também praticávamos outros desportos, no meu tempo. Só muito recentemente percebi a sua nobreza.

Quando o barro amolecia, esgalhávamos alguns ramos de pinheiro e montados nas pequenas ramadas deslizávamos pelas encostas de S. Romão. Talvez porque sujávamos a roupeta que levávamos para a catequese, é que o nosso desporto de inverno só recolhia aplausos das mãos da nossa família no nosso pêlo.

Também jogávamos à pedrada, ao coice e à guerra no ar. Fazíamos de cavalo e de cavaleiro.

Hoje há quem pratique desportos parecidos, mas os olhares dos animais são mais compassivos e inteligentes que so dos cavaleiros.

4

a chave da derrota

Devo confessar que não percebo de futebóis. Até costumo dizer que não vou em futebóis. Mas não deixei de jogar quando foi tempo disso. Não me lembro de  ter acertado na bola, mas lembro-me de todas as vezes em que me acertaram nas canelas. Tenho as marcas nas canas das pernas. E joguei descalço no barro de S. Romão, contra bolas e cardos. E joguei calçado, participei até num torneio internacional E até já fui qualquer  coisa como manager de uma equipa de futebol de salão, tendo apresentado reclamações contra uma organização destemperada que prejudicou seriamente a a minha equipa. Também já fui claque, em amis do que um país do mundo.

Uma vez fui claque da equipa da minha escola que se deslocou a Cantanhede, para perder vergonhosamente. Às tantas desvairei. E , em vez de puxar pela minha equipa, comecei a gritar contra a minha avançada que se escondia atrás do nosso guarda redes e contra a minha defesa que se escondia atras  da baliza do adversário. Só me acalmei quando o meu ponta de lança tirou uma das suas botas e tentou deitar abaixo uma das maças mais vermelhas do meu rosto.

Atirei pedras. E cheguei a agredir um capitão, atirando o apito com um sopro mais irritado, quando acreditei que fazia passar um pénalti contra a equipa adversária. Fui preso a uma ceia de leitão. Posso falar de futebol. Não posso?

5

à beira-beira de um ataque de nervos

Desde ontem que ele anda no ar. Fala, fala sem parar. A mulher disse-lhe:  -“Oh! homem! acalma-te.”

Ele fala em surdina: – “As mulheres não percebem nada. Mais te valia estar calada!”

Não era para ela ouvir, mas ela ouviu e pensou: -“Vamos tê-la boa: se o Beira Mar ganha vai ser piela pela vitória, se o Beira perde vai ser piela para afogar o desgosto.”

O pensamento não era para ser adivinhado, mas ele adivinhou-o, enquanto puxava a grade de cerveja para o pé da telefonia. Nervoso, acabou perguntar em voz alta demais: “Um homem já não pode beber uns canecos depois de uma semana a trabalhar?”

A mulher calou-se. Magicou que era bom que o Beira-Beira ganhasse. Ele acabava por beber uns copos, mas ficava contente e era bom quando ele estava feliz. O campeonato da felicidade acabava sempre por sobrar para ela. E ela gostava dele, até do que sobrava dos combates.

Oh homem, baixa o som. Ainda falta muito para o relato.

– Que é isto? Oh, Artur, estão a falar de nós. Põe um bocadinho mais alto, já agora.

Subiu os três lanços de escada sempre a correr. No segundo já ouve a telefonia. Com o coração a bater “Beira-Beira” pára para descansar. “Não pode ser o TóZé. Ainda é muito cedo. O Artur deve estar a preparar os copos” – pensa o Emiliano, enquanto compõe o cachecol auri-negro.

Emiliano bate à porta. Ausónia vem abrir com o seu ar de ave, óculos muito graduados e embaciados da água quente do lava-loiça. É  a mão que está a limpar no avental que lhe é estendida. Entra.

Na sala de estar, em cima da do sofá, lá está a águia negra. Emiliano olha para o Artur. Artur olha para o Emiliano. Caem nos braços um do outro, espalhafatosamente.

Ausónia vê a cena. E lembra-se do tempo em que hesitava entre os dois amigos, sem dizer sim a nenhum deles. No mundo da sua juventude só havia aqueles dois rapazes completamente malucos, sempre a gritar, a dizer disparates e a dar gargalhadas malucas enquanto corriam atrás um do outro pela avenida do parque no fim dos desafios de futebol e se esqueciam dela.  Tremoços, pevides e anedotas. E ela sentada, entre os dois que fingiam agredir-se separar.

Eles gostavam um do outro. E do Beira-Beira. Ela gostava deles, daquela energia.

Quando fez 17 anos, aceitou  o namoro do Artur. Durante uns tempos, aconteceu-lhe passear sozinha com o Artur. O Emiliano afastara-se. O Artur parecia então um homem sério e reservado, traçando planos para o futuro. E apesar de toda a ternura do Artur, nesses passeios de namoro, ela sentia a falta das gargalhadas brigonas dos dois. Continuava a ir ao futebol com o Artur e de vez em quando com o Artur e o Emiliano, mas eles tinham crescido de repente e a vibração como que tinha esmorecido. Alugaram a casa, ainda antes de se casarem. Mobilaram-na e forraram algumas almofadas a amarelo e negro. O Artur trouxe a telefonia de solteiro. Quando o Beira-Beira jogava em casa iam sempre ao Mário Duarte. Quando o Beira-Beira jogava fora, se não aproveitavam para dar um passeio, ficavam em casa a ouvir a velha telefonia. E vinha sempre o Emiliano, com dois saquinhos: um com pevides, outro com tremoços. E voltaram as gargalhadas, os murros, os palpites, as anedotas.

Ausónia olha para a sua juventude. Para os seus dois homens. “Eles gostam um do outro e do Beira-Beira. E gostam de mim, cada um à sua maneira” – murmura para si mesma.

Assim pensava Ausónia.

E despejou a primeira garrafa de cerveja nos dois copos, enquanto o primeiro tremoço era disparado direitinho ao coração da águia. E desejou mais uma vez a vitória do Beira Mar, mesmo que não seja o melhor em campo.

Da telefonia escorriam os diálogos e até os seus pensamentos. “O tipo que fala está a gozar comigo” – pensou Ausónia. E sorriu.

E pensou, repetindo o espelho da frase batida do Artur. “Eles não percebem nada disto.”

Mas interrompeu-a a meio e disse, agora em voz alta: ”Mas tem piada que falem disto.”

Artur e Emiliano, que esstavam envolvidos  numa conversa sobre mulheres e jogadores e mulheres de jogadores e treinadores, entreolharam-se quando ouviram Ausónia. E desataram à gargalhada.