1990: concerto da voz

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Os músicos entraram no palco, a correr. Ninguém sabe bem porquê, mas acontece em todos os espectáculos. Eles entram a correr, como se fossem perseguidos por uma manada de  búfalos.

Os guitarristas correm brandindo as guitarras como se fossem armas. O baterista brande as baquetas. Ameaçam quem os persegue.

O que é verdade é que os inimigos, se eles existem e os perseguem, não entram no palco.

Depois dos  músicos,  que se ligam  à  corrente e começam a experimentar o som, só entra um homem desajeitado c tímido que fica para ali, meio perdido, com o microfone na mão. Para ele,  ouve-se a maior ovação.

Primeiro, pareceu-me um dos técnicos que vinha ajeitar este ou aquele altifalante. Mas cu não o vi fazer qualquer dessas coisas, c também o não via com vontade de sair. Ao  contrário,  ele procurou uma cadeira e sentou-se, enquanto se instalava um espesso silêncio em toda a sala.

Passaram uns longos minutos. Depois, o homem aproximou  o microfone da boca e começou a falar. Parecia-me que estava a falar com uma voz grave e mansa, mas rapidamente me dei conta que ele eslava a cantar, sem qualquer acompanhamento musical. Ele dizia coisas como

“Que o nome que era o seu o persigam os ecos,

O gritem no deserto as gargantas com sede,

O murmurem no escuro os mendigos com frio,

O clamem na cidade as crianças com fome,

O soluce o amante de súbito impotente,

O maldigam no exílio as almas sem descanso”

Decorei os versos? Ou já os conhecia de outras leituras? Quando ele começou este último verso, uma guitarra vibrou rouca como se fosse um sublinhado. E o verso saiu corno se fosse um grito violento mas baixíssimo.

E foi então que todos os instrumentos se ouviram, enquanto ele, mais quieto e perdido que antes, cantou:

“Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,

A pálpebra doente …

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco,

A arma do ladrão,

A marca do vencido”

Para voltar a repetir como um refrão as palavras que lhe tinha ouvido ao princípio:

“Que a terra lhe seja pesada.

Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos.

Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta

E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento

E arrase com ela a memória gravada

Na lembrança demente dos que o choram.”

A canção era longa. Ele, o cantor,  nunca mudou de lugar. Manteve­-se sentado.  A voz era tudo. Havia momentos em que a voz era um gesto acusador, outras vezes,  a voz recolhia-se tão profundamente que me parecia ouvi-la, entrando  pela pele, empurrada pelo vendaval da música que a açoitava sem a calar.

Quando acabou a canção, o homem desajeitado levantou-se e sem olhar para ninguém saiu do palco. A multidão aplaudiu longamente, mas o homem não voltou.

Eu ainda o procurei. Nunca mais o vi. E ninguém o conhecia.

Os  músicos  tocavam agora as melodias prometidas e o guitarrista cantava esforçadamente, mas eu saí dali  à  procura do monólogo que o cantor não tinha feito mais que iniciar.

Já  identifiquei o poema e o seu autor. Não interessa.

Aprendi que há palavras que só existem dentro da voz que as diz no instante propício de as dizer. Ou talvez tenha aprendido que há instantes propícios para ouvir.

Para dentro de mim, repito o monólogo e ouço mesmo os sublinhados da guitarra rouca. Chego a convencer-me que fui eu que cantei, ou recitei, aquele “In memoriam” por mim.