1990: aldeia

evora5

1

Estás a ouvir gemer lá fora?

É o vento, mulher, que se meteu nas alhadas das frinchas da quaresma.

Vai ver, homem. Pode ser alguém que esteja aflito.

É o vento num apito, mulher. Mas já que insistes, está bem! eu vou ver.

 

–  Que viste, homem? O que era, homem?

–  Não vi nada, mulher. Deve ser o vento, mulher. Mas não se mostrou, o danado.

–  Deixa a porta aberta, homem, para ele entrar, se precisar.

 

2.

A rapariga andou toda a quaresma agasalhada com uma samarra de gola de raposa. Aparecia nos ofícios da tardinha (ou noitinha) sem estar embrulhada como as outras mulheres que se embrulham em xailes negros e grossos.

De cabeça descoberta, a rapariga assiste ao ofício. O padre não deve ter percebido que é uma mulher, senão já a tinha posto para fora da igreja.

Do meu canto, vejo-a bem. A vela do altar da senhora das dores ilumina-lhe os olhos e a boca. Tentei rezar ao mesmo tempo que ela, olhando-a fixamente. Depois deixei de rezar e passei a tentar adivinhar a que palavras o movimento dos seus lábios corresponde. Não me parece que seja a oração que todos estão a rezar. Ainda antes de acabar o ofício, aproximo-me da porta estrelinha por onde saem os homens e mal o padre nos dá o último olhar de pastor e se ajoelha para sair para a sacristia eu tresmalho a correr para a saída das mulher. Vejo-a  partir e vou atrás dela como uma sombra.

Sigo-a pelo rasto louro do seu cabelo iluminado pelo luar. Fico sempre parado  na entrada do carreiro para onde ela vira. Hesito e fico por ali uns momentos enquanto a perco de vista.

Foi assim toda a quaresma. Ela nunca me viu. E eu nunca confessei isto a ninguém.

3.

Hoje é o dia de lua cheia. Nos  barros, por detrás do cemitério, vêem-se pequenas chamas movendo-se como se fosse uma procissão de pequenas velas a vir de cima do monte até quase junto do cemitério.

As bruxas juntaram-se. Estão nuas e ensebam-se umas às outras, especialmente ensebaram as covas dos braços. As mais velhas acenderam os pavios dos pêlos dos sovacos das mais novas. Então a ti Cisalpina, a mais velha das bruxas dos barros de S. Romão, abre os braços e começa a bate-los como se fossem asas. Grita: – Voa, voa por cima de toda a folha. E eleva-se no ar, graciosamente. As outras imitam-na. Pode ouvir-se ao longe uma cantilena: Voa, voa por cima de toda a folha…

E enquanto as bruxas voadoras evoluem em círculo no alto dos barros, às ordens da ti Cisalpina, a Maria Deolinda corre pelos barros abaixo enquanto grita a frase motora e bate freneticamente os braços. Acaba por se estampar contra o silvado que ladeia o caminho. Toda arranhada, nem se veste. Vai para casa ali perto, cheia de vergonha, e e deita-se na enxerga de solteira.

O ti João Santo esquece a lepra, levanta-se da cama, enche o balde de água e corre a apagar o silvado incendiado, mesmo ali ao lado de sua casa.

4.

Rais partam a ti Ana Tendeira, mailos espíritos que a acompanham a penar por este mundo! – gritava a ti Francolina – Temos de ir à bruxa, Manel! É o Gusto que nunca mais caminha e agora o raio do poço que arrunha e leva o boi para dentro dele com o engenho e tudo. É o raio da ti Ana Tendeira qu’anda por aí para nos atentar.

Tá bem, mulher. quando houver pouco que fazer, vamos à Carregosa. Mas deixa passar o S. Miguel.

Agora, que tinha começado a quaresma, ali estava ela  sozinha maila bruxa, com o Gusto ao colo e a ser perseguida pela alma da ti Ana Tendeira que, feita vassoira, não obedece ó raio da bruxa e a persegue à vassoirada. – O estupor do Manel bem pode no acreditar em bruxas. Já apanhou o barco pró Brasil.

 

5.

O Ângelo subiu paa cima do telhado escorregadio. Não se preocupa muito em não fazer barulho. Dali, encostado à grade laranjeira que poisa uma parte do seu carrego de fruta no telhado do ti Sarôto, Ângelo começa por comer uma laranja calmamente descascada com os dentes. Quando acaba e depois de mandar um monte de cascas para o sítio do silvado que nos escondemos à espreita e à espera, é que começamos a ouvir sons do trabalho metódico de arrancar laranja a laranja até encher o saco. Quando lhe dá na veneta, manda-nos uma laranja em cima. Faz um barulho dos diabos – parece-nos que dizemos todos à uma – cheeeeeee – o que só aumenta o nosso nervosismo.

Só quando tem o saco cheio, é que o ângelo sai do seu esconderijo e de saco às costas começa a descer pelas saliências dos adobes que parecem surgir debaixo dos pés do ângelo. Ainda antes de correr para o caminho ladeado de silvados, o Ângelo grita;: Adeus Romã Sarôta da minhalma. Não rezes tanto.

Ouvem-se os risinhos femininos e o ralho do ti Sarôto a perseguir-nos pelo caminho de lama, convencido de estar a afastar as filhas do demo.

Ofegantes, paramos na casa da eira onde o Mário Sapateiro tem a oficina e começamos a comer as laranjas. Sobram sempre algumas laranjas que o Mário Sapateiro oferece ao ti Sarôto quando este vem de manhãzinha matar o bicho à estrada nacional.

O ti Sarôto não deixará de gabar as laranjas do Mário Sapateiro.

 

6.

Nas noites dos dias de jejum, as raparigas juntam-se na sala do Senhor. Acendem o candeeiro, mas com pouca torcida. Sentam-se pelo chão, deixando algum espaço entre elas. Cobrem-se com aquelas montes de trapos que vão começar a rasgar em longas tirinhas finas. Riem-se com gargalhadinhas cúmplices.

Daí a algum tempo, como se fossem atraídos pela luz que tremula, chegam alguns rapazes. O namorado de uma delas senta-se ao seu lado e puxa  trapos para cima dos seus pés e começa a rasgar. Os outros rapazes ficam hesitantes alguns momentos , até que  com se tudo estivesse destinado antes, distribuem-se nos lugares sobrastes entre as raparigas que cantam nervosamente enquanto rasgam trapos. Daí a pouco todos os rapazes  estão cobertos de trapos e fazem verdadeiros prodígios de contorcionismo para manter o tronco  separado das raparigas enquanto as pernas procuram tocar as pernas das raparigas por baixo daquela manta de trapos por rasgar.

Quando a velhota que parece estar ali por acaso se distrai, as mãos dos rapazes que rasgam afoitam-se pela farpela das cachopas. Estas fingem-se muito zangadas e dão cotoveladas amorosas. Quando a velhota volta os olhos para este lado da vida, ouvem-se novas conversas e nascem risos de disfarce. Mal disfarçado! – sorri a velha que se lembra das rasgadelas das quaresmas da sua juventude.

 

7.

Ó Arsélio, vai  ó  ti Ismael comprar uma chaminé  pró candeeiro. Vai já e manda assentar. – gritava o João.  Tá bem, tá bem. E se quando a mãe chegar, ficar danada? Ela no deu ordem. – arteve-se a dizer o pau mandado.

Perseguido pela tenaz que tinha voado das mãos do João, Arsélio começou a correr comuma alma danada e num repente já tinha galgado a estrada e ofegante pedia uma chaminé ó ti Zé Vendas. Este deu-lha e disse pró Ismael: Aponta aí uma chaminé.Pra quem? – gritou o Ismael.  Prá tua cunhada Francelina.

Um homem bem posto, uma gravata às bolinhas, saiu do meio dos homes que estavam a falar e a beber, olhou o miúdo sujo  antes de voltar à conversa quero ele que estava a pagar as despesas da conversa.

O Arsélio tomou a berma da estrada e correu até casa. Quando chegou a casa a mãe já tinha chegado. Não ralhou, nem lhe perguntou nada. Disse-lhe: – Vai-te lavar. Vê se surras bem essas mãos e a cara questão encardidas.

Arsélio já cabeceava depois de ter debicado , da bacia, as batatas com molho de carne frita. Ouviu a voz da mãe: Já comeste, Manel?  A mãe tinha os olhos brilhantes  enquanto falava com o home  bem-posto qu’há bocado o tinha olhado na taberna. – Deve ser o pai vindo do Brasil, pensou. E foi-se deitar atrás dos outros irmãos.

Nenhum dos filhos disse nada. No celeiro, antes de se meter debaixo dos cobertores, bebeu um golito de cachaça.

 

8.

O ti Manel virou-se prá mulher e disse: Hoje vamos a Íbalho a tirar umas fotografias. A Francelina no disse nada, mas ficou danada. – Com tanto por fazer  e aquele malandro a pensar em ir tirar fotografias. Mas tá bem,, le é quem manda. Deve estar para ir embora outra vez. E nem água vai! Acabou de deitar a lavage para os porcos, atirou pró galinheiro um braçado de coives e dirigindo-se a casa começou a gritar pelos dois filhos mais velhos. É Augusto! É Armanda! Venham cá! onde raio se meteram esses estapores? Teve de gritar mais até eles aparecem, cada um de seu lado. Ó primeiro que apareceu enfiou-lhe o focinho na bacia e começou a esfrega-lo. De vez em quando , o miúdo resfolegava  e tirava a tromba da água, mas para lá voltava logo de seguida. A rapariga evitou o ataque, começando ela mesma a esfregar a própria tromba com todos o vigor.

Quando os tinha prontos e já tinha vestido a sua blusa de crepe nova, disse: Tamos prontos pra partir.

Com cuidado atravessaram a estrumeira e saíram do pátio.O ti Manel pegou na biciclete e subiram até à estrada. Já na estrada, pegou no miúdo e puxou-o para o suporte da bicilete, passou a perna por cima do quadro e segurando na biciclete inclinada, ajudou a mulher a instalar-se e ajeitou-lhe a filha ó colo. Com um pé no pedal e com um empurrão do outro, Manel pôs a biciclete em andamento prá fotografia.

 

9.

– Com a ponta da tua cana tocas o céu, mãe. Que bandeiras acenas mãe?

– É o corpete da minha juventude, meu filho, que outra coisa dia ser?

– A quem dizes adeus, mãe?

– A todos os que partiram e a mim.

– Para onde vais partir, mãe?

– Para fora do meu destino.

– Levas-me contigo, mãe?

– Ainda não sei se és uma partida  do destino ou se és destino.

– Levas-me, mãe?

– Não vou levar nada de meu.

– Eu sou teu, mãe?

 

10.

– Para onde foi o pai, mãe?

– Não morreu, meu filho.

– Ele volta, mãe?

– Partiu daqui.

– Então sabe voltar, mãe.

– Não sabe. Ele estava cego.

– Que dizes? Ele via-me.

– Mas não via os caminhos, meu filho.

 

círculo virtuoso, 1990

com voz de josé antónio moreira

 na rádio independente de aveiro

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s