Harpaste

Séneca. Cartas a Lucílio.

50. (…)

Sabes que Harpaste, a boba da minha primeira mulher,  continua em minha casa, pois o testamento obrigava-me a assumir esse encargo. Pessoalmente não sinto o menor interesse por estas pobres criaturas; se precisar de um bobo para me divertir não preciso de ir buscá-lo  muito longe: troço de mim mesmo! Ora a boba perdeu subitamente a vista. Podes não acreditar, mas a verdade é que a infeliz não percebe que está cega. De vez em quando pede ao escravo que a trata que a leve para outra sala, porque a casa está toda às escuras! Nesta mulher , faz-nos rir uma coisa que, espero que o entendas, sucede com a generalidade das pessoas: ninguém se dá conta da própria avareza, da própria ambição. Os cegos, ao menos,  ainda pedem a alguém que os guie; nós andamos aos tropeções, não queremos quem nos guie, e vamos repetindo:”Não sou eu que sou ambicioso, o que sucede é que é impossível ter outro estilo de vida em Roma; eu não sou amante do luxo, a cidade é que me obriga a toda esta despesa; (…)

 

tradução de Segurado e Campos para a F.C.G

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