Uma estrela entre os cornos

Vi-a nascer.
No curral, caíu da sua mãe para cima de um monte de feno, que eu tinha acarretado para ali, às ordens de uma velha mandona.
– Raios a partam que não me deixa ver o mais interessante – resmunguei, entre dentes, quando fui buscar o feno.
Quando ela se esparramou desajeitada sobre a sua cama, espantei-me como é que aquilo quem parecia ter espinha, não se partiu todos com os puxões que o ti Zé Lamego lhe deu.

Passado um tempos, depois de ter passado pelas brasas, ao fundo do curral, vi a mãe dela a lambê-la mansamente e vi como, depois de limpa, ela tentava pôr-se em pé. Que espectáculo mais divertido! Que esforços mais desajeitados, desesperados e, pensava eu, desnecessários!

Mas no dia seguinte já se punha de pé. E daí a uns dias dava cabeçadinhas nas mamas da mãe. Ao passo que o meu irmão, que tem quase um ano, ainda anda por aí a gatinhar.

Quando ela começou a comer erva, ia vê-la esmordaçar umas pontitas. A mãe que sem falar a ensinou parecia estar a rir-se daquelas desmioladas corriditas pelo curral com a erva na boca. E daqueles saltos e coices disparatados. Quando saíram as duas, mãe e filha, pela primeira vez, sem palavras a mãe pô-la nos eixos. Enquanto a minha mãe e o professor andam há anos a tentar pôr-me nos eixos sem êxito.

Não posso dizer que fomos crescendo juntos, porque em 6 meses ela pôs-se maior que em 8 anos. Mas eu fui acompanhando os acontecimentos em volta da amiga que vi nascer. E não há dúvida que se ela anda em alguma escola aprende depressa. A minha amiga está destinada ao sucesso.

Quando apareceu o estranho com quem a minha velhota tinha falado na feira de Portomar, sempre acompanhada pelo ti Duarte, pela forma como ele olhou para a minha amiga, bem vi como ele a admirava. Bonita, luzidia, sempre contente. E pronto! Negócio feito. A minha velhota ficou de levar a minha amiga às Quintãs e logo no dia seguinte.

Eu fui também. Não me lembro se ela se despediu da mãe, mas lembro-me que foi todo o caminho com gaiteirices, a parar aqui que ali é a forçar a brincadeira. Sem nunca se cansar.

Nas Quintãs lá estava o homem da véspera. A minha amiga arranjou logo companhia. E não me ligou mais. Ficámos por ali um bocado. Quando apareceu o comboio, que eu só conhecia dos livros, muito maior do que eu tinha imaginado, deixou-me embasbacado. Nunca me passou pela cabeça viajar numa coisa daquelas. Aquilo é só para pessoas do outro mundo.

Quando o comboio recomeçou a resfolegar, procurei com a vista a minha amiga, para ver se ela estava tão assarapantada como eu estava. Não a vi logo.

O comboio começará a andar finalmente. E, espantado, vi-a passar diante dos meus olhos. Lá ia a minha amiga dentro do comboio com as companheiras de viagem. Segui-a com os olhos até ela e o comboio se terem perdido pelo mundo que os meus olhos não viam e nem eu imaginava.

Voltei para casa, macambúzio. O meu irmão bem me espicaçava e brincava a ver se me alegrava. Dia-me que não havia problema, que havíamos de arranjar outra amiga, que a vida era assim mesmo, e outras coisas com a intenção de me consolar. Ainda hoje ele conta como fiquei triste quando se vendeu aquela bezerra.

Só eu sabia que o que eu sentia e o que me fazia cismar tanto era o facto de ela, em sete meses, aquela desajeitada que eu vi nascer ter aprendido tudo
e, finalmente, ter partido sem uma lágrima a viajar pelo mundo. E de comboio.

E eu, com oito anos, co o rabo entre as pernas, a voltar para casa espantaralhado por ter visto um comboio. Imaginem o que seria se tivesse viajado nele. Raios me partam, mais a raça de que faço parte. Que fraqueza! Até mete nojo!


Para O Dedo no Ar, dito e ouvido na RIA, em Junho (?) de 87 (?) do século passado, escrita salva do lixo pelo José António Moreira.