os olhos do lobo, eu

Em frente, o quadro é quase branco. Só três vergões no papel denunciam que o papel foi torturado. Dois pequenos traços a carvão denunciam uma intenção frustrada de um esboço geométrico.

Em frente, a moldura cerca uma paisagem branca. No vidro, reflectem-se a estante e o quadro negro e vermelho da parede contrária. Vê-se ainda uma nesga de porta.

Em frente, o quadro é quase branco.  Para a direita, uma porta dá para um varanda e vêem-se telhados e, lá adiante, contra o céu cinzento de chumbo, destaca-se um edifício entre duas torres falsas, sendo que a torre da direita me parece igual à da esquerda depois de rodada  de 90° em torno de um eixo vertical que a atravessa de baixo até cima. O eixo continua pelo céu dentro, parece-me mesmo que se enfiou nas nuvens. Talvez seja uma antena e sirva para estabelecer comunicação entre o edifício e o céu.

Em frente, o quadro é quase branco. Os candeeiros acenderam-se na porta à direita. Também se acenderam os carros velozes. Fixado a esta mesa, tudo vejo nitidamente. O que está fixo no exterior, olha-me como o quadro branco me olha com seus olhos vazios de sentido. O que se move no exterior parecem-me olhos inquietos buscando um sentido no movimento. O que se move não vê, ou pelo menos não vê o meu olhar perturbado pela penumbra entre o dia e a noite. Os faróis mostram a presença  que se faz ausência. Sigo-os com o olhar e escuto o seu movimento como  uma ondulação urbana chegando e partindo dos meus ouvidos. Os edifícios estão silenciosos. O quadro branco em frente está silencioso, atento aos meus movimentos que ele reflecte.

Em frente, o quadro é quase branco, sobre uma parede branca. Posso desenhar a esquina com um traço negro. Dobro a esquina com os olhos e parto pelas ruas até lá onde o quadro é negro. O corpo aqui fica suportando os dedos inábeis que martelam letra a letra o quadro branco do computador.

Em frente, o quadro é quase branco. Viro-lhe as costas, mas sei que nas minhas costas está o quadro quase branco e nele colados estão dois olhos cansados de ver. Para os recuperar, viro-me para o quadro quase branco e volto a ver o quadro quase branco e à direita a rua com seus edifícios mergulhados na escuridão, as luzes fixas dos candeeiros, as luzes móveis dos faróis chegando e partindo, fugindo de mim.

Com nitidez vejo o mundo quase branco. Um mundo de papel e de luz, de luz no papel. Um mundo inóspito, por dentro de mim. Um mundo inóspito por fora de mim. Neste mundo sem fronteiras visiveis, um lobo anda às voltas como se estivesse encurralado no quadro quase branco, em frente de mim. Nitidamente vejo-lhe os olhos brilhantes, os meus olhos.

—————————

escrito não sei em que ano/dia/mês,

como pretexto, para ser bem dito por José António Moreira

e ouvido através da RIA.

quantas pessoas ouviram? não sei.  

só sei que escrevivi  para ser bendito