o que não vejo, escrevo

A mulher que vive no segundo andar esquerdo

usa sapatos vermelhos e um vestido azul escuro.

 

A mulher que vive no segundo andar direito

usa sapatos castanhos e um vestido vermelho profundamente decotado

e mais um mar de jóias que lhe tapa o pescoço e o peito que o vestido descobre

 

A mulher que vive no rés do chão sai à porta todas as manhãs bem cedo

ainda embrulhada num roupão turco e desbotado

para se despedir de todas as outras mulheres

 

A mulher que vive no décimo segundo andar direito

despede-se do jovem que parte para o trabalho incerto da escol

e  mal este entra no elevador volta para a cama e para os seus sonhos

interrompidos pela vida

 

A mulher que vive no sétimo esquerdo

vai morrer enquanto tricota a camisola de um neto

que haverá de nascer seis anos depois da sua morte

 

E eu que nunca vivi naquele prédio não sabia nada das vidas destas mulheres

até que decidi descrivivê-las.

 

pretextos, RIA, Junho de 1993