o meu trasorelho é a papeira dos outros

Estou  feliz, hoje. Porque decidi que não sei, ou não me lembro, do sol. Melhor dito,  não me lembro das suas medidas. Massa, densidade , brilho, temperatura, raio, distância à terra ou à lua, duração da sua vida, deixaram de me interessar.  E não me lembro, não quero saber.

Hoje, para mim o sol é um raio que me acertou em cheio, quando saí de casa. Saí de casa a correr fingindo que deixava o filhote João Pedro para trás. E o João Pedro a correr atrás de mim, quase se estampou, quando eu parei travado por aquele raio de sol. Lembro-me dele em todos os detalhes.

E deu-me vontade de ficar ali com aquele velho conhecido a bater-me nas mãos. Sim, é um velho conhecido, aquele raio de sol. Dirá quem me ouve que só a ignorância pode falar assim. Mas eu quero ser por momentos ignorante de algumas coisas, para aceder a outras sabedoras. Concedo que este raio de sol me faz lembrar outros raios de sol. Concedo que isto não interessa nada. Mas não me perdoo por não ter feito simplesmente o que era simples e natural. Não me perdoo por não ser natural e fazer as coisas que a vida social me exige ou pede ou ordena. Ao menos hoje podia ter feito aquilo que gostava.

Sentar-me no passeio, encostado à parede de casa, fechar os olhos e ficar por ali a ser acariciado pelo sol do dia e não por aquele outro que, a preto e branco, rechonchudo umas vezes, autopsiado outras, me apareceu nas aulas disto ou daquilo. E na astronomia, como se de uma super-nova, igual a milhares de outras, se tratasse.

Para mim, hoje, o sol é uma recordação de manhãs de primavera, encostado à parede do alpendre  da minha avó, com os olhos fechados e pouca conversa para fora. A ver partir os outros para a escola ou para a terra. Dia de trasorelho manso, de pequenas febres, de corpo amontado não se sabe por que combates interiores, é dele que tiro a minha ideia de sol. Sol como carinho sem seer pedido e sem pedir nada.

Hoje estou feliz, porque trago um raio de sol na cabeça, de que me lembro tão pormenorizadamente. A única sombra na minha felicidade está na culpa de não ter dito ao meu filho:

Hoje não vais à escola, eu não vou trabalhar, vamos sentar-nos aqui a apanhar este sozinho. Não perdes nada. Eu conto-te porque é que me deu esta vontade e talvez umas daquelas conversas de bruxas e lobisomens que a minha avó contava, quando lhe dava a molenga e se sentava ao pé dos netos adoentados, contra a parede do seu alpendre de nascente. E vais ver com é bom estar aqui umas horas sem ter nada que fazer, de olhos meio fechados, pouca conversa para fora, falas arrastadas.

Tenho duas desculpas para a minha cobardia:

Em primeiro lugar, os vizinhos iriam falar comigo e se ia a nossa manhã de silêncio e paz.

Em segundo lugar, mesmo que eu me recusasse  a falar, eles iriam pôr-se ali à minha frente a tapar-me o sol e a dizer-me que estar assim ao sol faz mal.

E é assim que eu, apesar de tudo, estou feliz.Tenho a lembrança feliz e intocada dos meus trasorelhos (papeira é nome que nunca me deu jeito dizer) e das minha s manhãs de sol e, por cobardia civilizada, não me decidi a tentar repetir estas manhãs, que, tenho a certeza, me estragariam.

Além disso, deixei para os livros, dicionários e enciclopédias, televisão, o sol de toda a gente e, em particular, dos que se preocupam com o conhecimento do futuro. Também sou desses. Mas hoje trago, aconchegado na palma da minha mão, escondido num dos bolsos da minha alma, o meu raio de sol. E sobre o futuro, as histórias das bruxas cientistas da minha aldeia e do meu tempo passado com um raio de sol único.

Estou feliz, hoje. Troquei a memória das coisas que a vida e a ciência me deram pela memória de alguns dias em que faltei à escola.

 

escritos para o “Dedo No Ar” (da RIA)

no ar  em 16 de Maio de não sei que ano 

e de entre salvados por JAM