o horizonte azul

Arnaldo Gomes regressa a casa. Tira o casaco e, antes de se sentar confortavelmente no seu sofá coçado, liga o rádio.

Ouve a música, por momentos. Distrai-se. Adormece. Mas continua a ouvir-se.

Dá largas passadas pela sala de aula e fala. Fala do que vê da janela da sala de aula. Descreve pormenorizadamente a paisagem, em especial descreve aquela esquina de betão da Caixa e a nesga de água que dali se avista, entreparedes.

Perde-se e dá por si a seguir aquela nesga de água até ao rio largo a que se junta. Descreve a linha do horizonte, a que separa as duas águas, os dois azuis.

Torna-se difícil distinguir por palavras os dois azuis. Ensaia fazê-lo com as aguarelas do Jerónimo que está há mais de quinze minutos a misturar cores para obter um azul que nem existe. Mas não consegue nem dar uma ideia. Os alunos, que entretanto se juntaram por ali, riem-se das tentativas, confessadamente falhadas,  para separar os dois azuis. Não há dúvida que aqueles não são os azuis que o professor Arnaldo deu a entender que estão lá, osde as águas do rio tocam as águas do céu.

Quando a Salomé tropeçou no meio da confusão e virou os três godés para cima da folha de trabalho do Jerónimo, pôs um ponto final nastentativas. Mais duas gargalhadas e umas bocas à Salomé e toda a gente regressou ao trabalho.

Só o Arnaldo continuou a pensar nos azuis, agora aborto nas suas longas passadas pelos corredores da sala. Distraído, foi dando instruções avulsas aos diversos alunos quando lhes passava perto.

E só agora, ali sentado no seu sofácoçado, é que Arnaldo Gomes está ver aquelas manchas de azul que a Salomé arranjou, com a sua trapalhice, na folha de trabalho do paciente Jerónimo. E determina com rigor que essas manchas eram as que procurava: espelho  das águas e do céu sem nuvens, separadas por uma incríve e nítida linha do horizonte. E quem sabe se algum daqueles azuis não era o azul impossíve do Jeerónimo.

Soergue-se no seu sofá. É como se estivesse na sala de aula a ver aquela folha. Apetece-lhe  ir à escola ver se encontra a folha amarrotada. Mas sabe que o Jerónimo a deve ter rasgado, meticulosamente.

Amaldiçoa a sua falta de atenção. Se tudo pudesse repetir-se tal qual, incluindo a trapalhice da Salomé! Sabe, amargamente, que isso não é possível. Aquele azul não voltará a repetir-se. Nem aquela linha do horizonte. Conforma-se.

Acordado, volta a prestar atenção ao rádio. Ouve o seu nome. Levanta o som e vê essa pura aula azul escoar-se do rádio.

 

escrito para o Dedo no Ar (RIA()

de 2 de Maio de não sei que ano do século passado

resgatado de entre os salvados por José António Moreira

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