o despertar do sonho

Não foi por acaso que Palmira da Silva saíu de casa, se arrastou até ao carro e partiu como uma louca, acordando a sua sossegada rua. Nunca tinha acontecido tanto barulho.

O senhor António Costa acordou estremunhado, olhou, por acaso, para o mostrador luminoso do seu relógio despertador. E registou no seu sonho que continuou persistente as cinco e trinta que piscavam no mostrador.

A mulher do segundo esquerdo, acordada desde sempre, ganhou coragem para se levantar e arrastou-se até à casa de banho onde ficou a olhar no espelho as reflectidas olheiras. Pensou, durante um bom bocado, nas cores a usar melhor as disfarçar. Ou para as tornar mais visíveis e carregadass de significado. Quando voltava para o seus vale de insónias ouviu o locutor falar das seis horas que se aproximavam e com lesa um bloco de notícias.

A doce e cândida Josefina Campos passou a mão pelos cabelos, ajeitou a camisa de dormir, puxou para si os lençóis e decidiu que o seu próximo sonho de amor seria com o Omar Shariff fardado de doutor Jivadgo. Por acaso, ouviu uma porta a bater, um carro a arrancar com os pneus a guinchar e em vez do Omar Shariff apareceu-lhe o Steve Mac Queen a seu lado numa fuga espetacular pela deserta rua do canal de S. Roque e pela estrada da Barra.

O tranquilo Acácio da Silva, depois de ter revisto o último gooolo do Porto e ter explodido de júbilo, acordou. Estava todo partido. Ganhou consciênciade que tinha estado a fazer o jogo, que tinha andado aos pontapés, que tinha gritado, que tinha marcado mais golos do que golos tinha havido no jogo real. Não tinha perdido uma oportunidade. Havia de lembrar-se de iniciar uma discussão a dizer como tinha sido possível ter escapado ao Mager e ao Juári aquela manobra. Estava todo suado.
Estendeu a mão para o lado da mulher na cama, como por acaso. Sempre que que acordava por qualquer motivo, buscava nesse gesto algum conforto e segurança. Não encontrou a mulher.
Chamou baixinho: Palmira!
E pareceu-lhe ouvir, ao fundo da rua, o seu carro. Não podia ser. A Palmira nem carta tem. Deve estar a fazer qualquer coisa – pensou. E adormeceu de novo.

Acordou de novo com o barulho da porta da rua a abrir-se. Já eram onze horas. O trabalho já era! E levantou-se feliz como um campeão europeu.

Na cozinha encontrou a Palmira com um saco de gelo na barriga que médico lhe tinha mandado pôr depois de se assegura que ela não tinha nada partido.

Acácio da Silva lembrava-se em pormenor daquele golo que o Mager tinha desperdiçado, mas que ele, por um acaso feliz, tinha concretizado com um bruto estoiraço.

 

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escrito para ser dito por José António Moreira,
a 30 de Maio de 1987,
como abertura do “Dedo no Ar” na Rádio Independente de Aveiro.