movimento e drama

a Isabel Alves Costa

Quando ela entrava na sala  eles já lá estavam sentados  pelo chão. E já tinham arrumado para os lados  as mesas e as cadeiras. Ao meio da sala tinham deixado a mesma velha cadeira de sempre.

Ela trazia pelos ombros  uma manta exótica, a  tiracolo um saco de pano, duas rugas cavadas perto dos olhos, o cabelo atado por um elástico de notas e um sorriso tímido deformando-lhe a boca.

A  Amélia da Fonte Seca pousava o saco na mesa mais perto da porta, despia pela cabeça a manta que a fazia parecer grande e forte que ia fazer monte por cima do saco. Sobrava a sua figura magra e pequena moldada pelas calças pretas coçadas e pela camisola preta de gola alta.

Eles já se tinham preparado e por isso  o mundo era a sala com o seu espesso silêncio, o de habitantes que esqueceram tudo o que não é a respiração que se ouve.

Neste mundo não corre a mais pequena aragem.

Amélia conhece-os bem. Demorou-os nos primeiros exercícios de relaxamento, de apagar as marcas das inibições do uso do corpo em relação consigo e com os outros corpos, nesses exercícios do mais profundo acordo e desacordo consigo mesmo.. Sabe que eles estão preparados  para, a partir de nada,  criar outra realidade e vivê-la.

E é como se tivesse crescido o corpo de Amélia quando se ouviu na sua própria voz.

Filipe! Estás a ouvir o vento? Começou mesmo agora a soprar. E é tão bom neste dia de calor. Primeiro suavemente. Depois cada vez mais forte.

 O Filipe  e os outros olharam-se e começaram  a ver.  Parecia que o cabelo de Amélia se tinha soltado ao vento e ondulava. E o sorriso dela era deliciado e era como se os dedos abertos dela estivessem a ser refrescados e que o vento estivesse limpando o suor. Todos, incutindo a Mariana que não vai em cantigas, sentiam o vento cada vez mais forte e começaram a ver o mar desdobrar-se onde antes o soalho não eram mais que um tapete coçado. E viam-na desenhar no ar ondas que no ar ficavam realmente visíveis.

Apagou a luz. Fechou as cortinas e disse: Hoje vamos ver os gatos e os ratos. Os seus movimentos para um drama. Olhem para os meus olhos. São amarelos e brilham.

E a Mariana viu que havia naquela escuridão uns olhos de um gato. Amarelos e brilhantes.

Quando Amélia fechou os olhos  nada se via.Disse: os meus olhos de rato são pretos e baços. O gato não me vê mas eu vejo-o e ando por perto. O meu corpo é cinzento e baço. Quando o gato me cheira, os olhos brilham-lhe ( e viam-se os olhos do gato Filipe brilhando), mas eu escorro por baixo das mesas e pelos buracos  (e sentiu-se a Mariana correndo para baixo da mesa do fundo).

A voz da Amélia primeiro  e logo  depois a voz do tímido Joaquim de Albergaria, criaram uma tempestade. E viu-se a faísca que o Joaquim criou e viu-se a trajectória dos olhos amarelos do Filipe que saltava para abraçar com as suas garras o rato Mariana descoberto pelo flash do relâmpago. Sentiram que a Mariana estava morta e era arrastada para o canto mais tranquilo  onde o gato Filipe despedaçava as suas presas.

(…)

Amélia acendeu  a luz e abriu as cortina. E disse que tinha sido bom. Vestiu a manta, pegou no saco, verificou se tinha o passe para regressar ao Porto e lembrou o ensaio de sexta antes de sair.

(…)

Foi assim e diferente  a vida da Amélia. Tinha abandonado tudo no tempo de pura euforia para pegar e largar futuros professes do ensino primário capazes do movimento e do drama.

Trabalhou. Recebeu o seu magro salário de contratada a prazo. Feliz uns dias. Cansada sempre. Mas das suas aulas criadoras de vento ficaram sulcos indeléveis  nas aulas de gerações de professores. Alguns, regressados à terra, por lá andam criando tempestades e inventando o drama do gato e do rato e mudando a face do mundo.

Mas Amélia  da Fonte Seca não tinha uma ciência exacta para dar, nem tinha procurado procurado a licenciatura para se segurar nem outros contratos melhores.

Um dia o Ministério descobriu que tinha de eliminar uma despesa. Procurou a despesa como um gato atrás de um rato. Uma faísca  iluminou o canto da sala do Magistério em que Amélia se escondia. As garras de tinta vermelha dispensaram para o canto dos desempregados a Amélia da Fonte Seca.

O Filipe e a Mariana dizem que o Joaquim de Albergaria já não distinguia os dois mundos e,  por isso,  partiu para lá onde decretou que nada disto pode acontecer. Perturbador é viver deste lado do espelho.

escrito para ser lido   em 24 de Janeiro de 1987  no   programa

Dedo no Ar da  Rádio Independente de Aveiro   por José António Moreira

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