fumar o ninho

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As aves carregam para os seus ninhos o cotão dos meus bolsos, o meu pó e até o meu tabaco de cachimbo.  Nunca se devem deixar os pacotes de tabaco abertos, mas naquela manhã eu não podia fechar nada que me dissesse respeito.

Estava deitado, com a cabeça enterrada na areia, enquanto as sentia debicar o meu mundo em volta de mim espalhado. Não podia mexer-me e as aves tudo levaram.

Quando, tarde demais, me levantei, persegui cambaleante as últimas aves do meu pesadelo. Adivinhei os seus ninhos pelo cheiro do tabaco e fiquei emboscado a ganhar forças.

Deixei passar os dias. Não me mexia. Seguia fascinado os voos e maravilhava-me com os  saques das aves. Partiam e regressavam ao ninho, sempre em construção, com pequenas partículas nos bicos. Não me mexia para não interromper a a construção. A partir de certa altura, habituadas à minha presença rígida, as aves começaram a debicar por perto e algumas vezes pousavam nos meus ombros.

Finalmente dei um grito horrível. As aves esvoaçaram para fora dos ninhos e eu subi as traves, com mil cuidados. Quando cheguei ao primeiro ninho, enchi o cachimbo e, deliciado, … fumei o ninho.

escrito para Pretextos e dito em 17 /9/93 na RIA por JAMoreira