encomenda de um pintor

1.

o pintor não foi cuidadoso
começou por pintar as águas do canal e nesse espelho pintou o céu as casas e algumas pessoas que  passavam
quando levantou os olhos para pintar a realidade acima das águas ela não estava lá

com horror ouviu o grito dos afogados

2.

nunca expôs a vida que pintava
quando deixou de sair de casa laboriosas mulheres arrumaram as telas pelas paredes das salas onde se encontravam amontoadas e abriram as portas ao público

antes de ser a estátua do pintor cego que conhecemos arrumada a um canto do sótão da casa-museu pintou as pessoas olhando o quadro em que surgiam olhando o quadro em que surgiam olhando…

3.

depois de empurrar para dentro os cotos dos lápis o carvão as bisnagas as espátulas os pincéis as facas os panos e os papéis fechou cuidadosamente as gavetas da velha cómoda pregou-as e colou-as
com várias demãos de negro e verniz o pintor tentou inutilmente tapar as manchas de cor da sua vida só uma pequena gaveta, que sempre estivera vazia, permaneceu aberta, negra e vazia na sala do museu

ninguém deixa de espreitar para dentro da pequena gaveta

4.

no museu eles guardam mesas antigas cadeiras molduras telas pintadas esculturas

o pintor guardaria um inacessível ponto de luz para que deus visse a linha de luz o trajecto

5.

o alimento dos animais e das plantas é ainda a nuvem que cai do alto sobre o cristal destapado pelos cascos do vento indomado num fio de água de metal e vapor a raíz mineral abraça a pedra do cerne viscoso da pedra
um caule de vida vegetal brota para a luz uma fonte vira o seu olhar azul
o pintor só recolhe as marcas dos cascos do vento

6.

uma árvore está plantada onde o lago começa:
o poeta disse que a árvore bebe a tensão do espelho em que o sol reflecte a sua vaidade. quem não bebe a água ? contrariamente ao pensamento dos pintores a folhagem bate e expulsa o vento
o poeta sabe: é o sol quem vagarosamente bebe o vapor de água
o pintor recorta com todo o cuidado um quadrado da neblina da manhã
o pintor atira a pedra rente à superfície das águas e conta as vezes que a pedra salta antes de se afundar na tela do lago da tela

7.

porque te hei-de mentir em cada movimento? que me custava obedecer-te? estas são as dúvidas da mão do pintor
da mão que treme e ateia o fogo à cabeleira do pincel e o deixa contorcer-se de dorsobre a tela:
este é o conselho do poeta amargurado que habita a oficina do pintor antes de pendurar as folhas brancas e suadas para que corem expostas à vergasta do sol e à malícia humana
o pintor espreita a todas as portas iguais que todas as telas são
o pintor tenta ficar sossegado, apesar do que vê quando se espreita

8.

homens devoraram uma aldeia e dela resta uma inóspita terra de cegos e as visões obstinadas de uma imortal bruxa
os pintores são cegos que vivem na aldeia da bruxa das visões
nuns casos são eles que pintam a partir da descrição que ela fala
noutros casos eles só fornecem as cores e é ela que em transe devolve a paisagem e a loucura dos evidentes
os pintores contam o que sabem a ninguém


esclarecimentos:
um dia de não sei quando um amigo pediu-me que escrevesse para uma exposição de pintura.
eu só pedi para ver um ou alguns quadros do pintor que me encomendava palavras.
poucas vezes o  vi falar e  percebi assim a razão da encomenda de palavras
depois de não o ter ouvido antes da exposição, nunca mais o vi depois.
dele sei que é de vagos como eu, e que, como eu, somos parecidos demais comigo