desenhar e apagar: não deixar rasto.

dobra

Dou por mim a falar sozinho cada vez com mais frequência. E a chorar a rir sem motivo aparente.

Sempre que pensei ir fazer uma coisa, acabei por  fazer (e a ser) outra. Uma coisa é certa e não foi o que encomendei  para mim mesmo: sou estudante de letras e de artes e para esta maldição não vejo remédio.

Umas vezes escrevo, outras desenho. Mas tudo o que faço se revolta contra mim. Por causa dessa incrível vida que assalta o desenho dos meus dedos, passei a viver sozinho.

Desenhei com um lápis rombo, nas paredes caiadas do meu quarto, os corpos dos vizinhos que desejei ter. Mas eles passaram a ser sombras que se movem pela arquitectura do esfaqueia-céus onde me refugiei. Quando eles se deslocam pelos corredores acendem luzes insuportáveis e cumprimentam, com aqueles movimentos lentos das sombras, os outros vizinhos e algumas das amantes que moram nos diversos andares do meu corpo.

Têm olhos vidrados os vizinhos.

Eu atiro-me ao desenho das paredes e, com uma borracha e uma lâmina, raso-lhes algumas tiras de pele. Dessas tiras de pele, ou de cal?, pacientemente faço as m,inças sandálias de peregrino. Quando peregrino entre a janela e a porta, os corpos dos vizinhos sangram as paredes do meu quarto.

Têm olhos vidrados os vizinhos.

Desenho então a automática dos meus pesadelos, copiando pela fotografai da revista que guardo desde a adolescência guerrilheira. Com ela , vou matando misericordiosamente os vizinhos meio apagados e em carne viva.. Mortos já os arrasto para o elevador no andar dos olhos e desço-os até ao rés do chão. Empilho-os cuidadosamente sobre ouros desenhos que esperam a passagem da camioneta de recolha de lixo.

Assim descansam os vizinhos.

Volto a subir no elevador até ao andar dos meus olhos. E decido-me. Com a última bala, desde sempre na câmara, vou estilhaçar o corpo do meu último lápis, rombo e doentio. E essa parte da minha alma esvai-se liquidamente para o soalho. E evapora-se  rapidamente.

Rasgo a manga do casaco e penduro-a como uma bandeira, a secar ao vento,  tinta do sangue das sombras. E volto a adormecer no divã que ileso se desdobra a meio do campo de batalha.

 

Quando acordar já a manhã vai alta. A mulher a dias que desenhei quando para aqui vim já limpou tudo.  Do ajuste de contas, como únicos sinais, sobram dois buracos de balas desenhados no colchão do divã.

 

 

escrito para “o dedo no ar”, rádio independente de aveiro, 

em 28 de Março de 1987, dito por José António Moreira