ascensão e queda

Ninguém passa por uma nuvem daquelas.

Eu bem ia a tentar passar, mas acabei por desculpar-me dois minutos na minha ascensão a olhar para ela. E não resisti a entrar. Mais minuto, menos minuto.

Mal dei os primeiros passos, senti as meias húmidas e, logo logo, tinha os sapatos cheios de água. Mas continuei  até porque finalmente sentia a cabeça fresca  depois de algumas horas de exposição ao sol. Distraído pela paisagem, não dei grande importância à água que me dava pelos joelhos. Mas, de repente, a água começou a entrar-me pela boca aberta maravilhada.  Esbracejei um pouco e senti-me melhor, respirando o ar húmido.

E voltei para trás. Só então reparei que não havia caminho atrás de mim. Nem sinal das minhas pegadas. Não havia sinal de mim. E continuei então para a frente, já a andar desesperado. Atrás de mim, a nuvem caía.

Parei um momento. Deixei-me afundar. Mas a água em que me afundava, estava a cair enquanto eu me afundava, e, em pouco tempo, eu já não tinha onde me afundar e caí na inconsciência.

Porque as asas não me secaram a tempo de recomeçar a voar, vim cair à porta do inferno inundado. Um diabito olhou-me divertido e fez-me sinal para eu o seguir. Secou-me as asas, brincou comigo por uns momentos e depois abandonou-me.

Podia ter tentado voar. Mas desapertei os olhos para não ver e as asas para não voar e integrei uma brigada de sapadores  que procuram, nas correntes lamacentas do inferno,  o rio de fogo que lhes prometeram em vida.

 

pretextos, RIA, Maio de 1993