aos 28 dias de cada mês, a feira

Tenho uma confissão a fazer.

Nunca tinha ido à feira dos 28, apesar de viver por aqui e saber que se está diminuído quando não se conhece a feira do lugar. Não conhece Aveiro quem não se deixou afundar e perder-se na magnífica multidão da feira dos 28..
Abençoados encontrões e palavrões e ralhetes que nos dão. Ficamos reconciliados com o mundo, tamanha a companhia e tão grande é o carinho.
Somos todos iguais na feira dos 28. Quem, na Avenida, nos cumprimenta cerimoniosamente, pisca-nos umas palavras cúmplices na feira dos 28 e nos dá uma palmada amigável nas costas. Como para fazer ralhar os que querem passar e lhes dizer: aqui está uma coisa importante para fazer, convidar um professor para comer uns tremoços e perguntar-lhe o que anda a comprar, se os professores também vêm à feira comprar a roupa, … Perguntas que não se fazem fora do bulício dos 28.
Tive de explicar ao Matos, com alguma vergonha o digo, que fui à feira para distribuir uns comunicados dos professores à população, que cheguei atrasado e perdi os meus companheiros do Sindicato. E depois tive pena de ter dito a verdade. Quebrei um pouco aquela cumplicidade carinhosa que tinha feito parar o Matos a falar comigo.
Afastados do corredor humano lá me informei. O Matos começou a trabalhar. Farto de andar na escola sem conseguir fazer nada e, sem saber o que é que o pai e a mãe decidiam separadamente do seu destino, pôs pernas ao caminho e começou a desenhar-se. Muito alto, com menos borbulhas, algumas farripas com gel a sair para os olhos debaixo de um chapéu de cowboy, um casaco todo bonito e um laçarote de fios a cair de uma chapa presa ao colarinho parecia herói saída de uma fita.
Quase inconscientemente olhei-lhe para os pés. E lá vi os seus sapatos pretos, brilhantes e bicudos.
Falou comigo sobre o trabalho na construção civil e disse-me que hoje andava de folga a fazer de vaqueiro em dia de feiras, a ver as miúdas. É carnaval, professor!
Depois fiquei a vê-lo partir, todo gingão.

E veio-me à memória o Matos na escola. Pequeno e atrapalhado. Acusado de não perceber nada de nada, de interromper as aulas, de beliscar os colegas, de andar à pancada. E sentado à miha frente a tentar esconder os sapatos de pano todos molhados do inverno, sujos e rotos. A lembrar-me a minha infância sem sapatos e os sonhos em que vou desclaço para escola e tento esconder os pés sujos dentro dos canos das calças.

Volto aos encontrões dos corredores da feira dos 28 e dou por mim feliz pelo Matos. Por ele, que não tendo dinheiro para comer bem, decidiu comprar uns sapatos de verniz e um chapéu inútil. E aproveitar o Carnaval para passear um perfume exuberante e gingão.

E ter pena de mim que nunca cresci tanto. Nem pelo Carnaval.

 

escrito para O dedo no AR (não sei de que ano)

entre os salvados por  J. A. Moreira