a sede do medo

O homem disse adeus e meteu-se ao caminho. E logo logo começou a cantar . Alto e desafinado.

Os lobos bem viram que ele estava nervoso e que cantava para afastar o medo.

O homem viu ou imaginou que viu os olhos dos lobos em volta. Ouviu ou imaginou que ouviu os passos cautelosos dos lobos em volta.

Os lobos cheiravam-no e cheiravam-lhe o perfume enjoativo que o medo exala. O medo cheira à distância – sabem os lobos isso melhor que ninguém. Fecharam os olhos para não se denunciarem. O cheiro chega para não o perder de vista. Não rosnam os lobos. Na escuridão sem lua os lobos não uivam.

O homem pensa que não não viu lobos nenhuns. E recomeça a cantar com uma nova cantiga. Para afastar os lobos dos seus medos. Num dado momento pareceu-lhe ter tocado em qualquer coisa húmida fria. pensou que podia ter tocado o focinho do lobo mais atrevido da alcateia.

Um dos lobos aproximou-se tanto que o homem lhe tocou. No focinho. O lobo estremeceu de medo a esse contacto. Podia ter estragado a noite a toda a alcateia com esse acto impulsivo: Os outros lobos estacaram e o ar dos lobos ficou carregado da ameaça muda e cega que a alcateia mandou ao lobo impulsivo.

Sem deixar de cantar o homem parou para tirar dos bolsos o cachimbo e um pacote de tabaco. Encheu o cachimbo com os gestos nervosos de dois dedos bem treinados. E mesmo com o cachimbo na boca o homem continuou a cantarolar. Cantar com o cachimbo na boca não é bem cantar. Procurou os fósforos nos bolsos. Em todos os bolsos. E nada. Deixou-se ficar de cachimbo na boca trauteou um verso de irritação e acelerou o passo.

Os lobos sentiram o cheiro do tabaco. Sabem que atrás do tabaco vem o relâmpago do fósforo que tudo cega momentaneamente mas que acaba por tudo mostrar. Como se obedecessem a um sinal combinado os lobos alargaram o círculo do cerco. Ouviram o homem a praguejar e souberam que ele não tinha encontrado os fósforos. Voltaram a apertar o círculo.

O homem teve a sensação de que tinha estado livre de medo por alguns momentos. Deve ter sido a expectativa de uma fumaça bem puxada pensou ele. Ou terá acontecido que os lobos na previsão do fogo se afastaram? ironizou com o próprio medo. Verdade ou não isso durou muito pouco tempo. Com o passo apertado o homem continua a caminhar sentindo-se seguido e cercado. Ainda canta agora de voz embargada mais parecendo que vai a chorar alto. Acaba por sentir-se pior só por se ouvir. E cala-se. Chupa o cachimbo vigorosamente como se respirasse por ele.

Os lobos aproximaram-se mais ainda quando o homem começou a choramingar a canção. E mais ainda quando ele se calou. Mais ainda quando ele se apressou e quando ele começou a respirar ruidosamente pelo cachimbo. Estranham que ele ainda não tenha tropeçado nos lobos que lhe barram a fuga para a frente. Fazem prodígios aqueles lobos a andar sempre de lados para trás. Sentem vontade de prolongar o cerco só pelo gosto que a perícia lhes proporciona.

O homem chegou ao fim da rua e virou para a viela. Sentiu-se em segurança naquele beco sem saída de sua casa. Recomeçou a cantar na esperança de que algum vizinho o ouça e venha à porta e a viela se ilumine por pouco que seja. Tropeça. Deve ter sido nalguma soleira. Não pode ainda ser a sua. A sua porta está mesmo pegada ao tapume do fim do beco. Já não pensa que talvez tenha tropeçado num lobo. Acelera.

Os lobos fizeram prodígios para dar a curva. Tiveram de apertar mais o cerco. Sentem o bafo uns dos outros. Um dos lobos tropeçou numa das soleiras salientes e não pôde evitar que o homem nele tropeçasse. Já não acreditam que o homem não tenha dado por eles.

O homem parou já perto do fim do beco. Apalpou os bolsos à procura das chaves. Vá lá! Ao menos as chaves apareceram. Pega nelas e continua o caminho agora apoiando-se na parede.

Os lobos ouviram tilintar qualquer coisa. Não sabem o que é que o homem tem na mão e o que é que prepara. Desconfiados redobram cautelas e preparam-se. Os lobos da frente bateram numa parede e já não podem recuar mais. Tensos esperam o sinal.

O homem mete a chave na fechadura. Roda-a. Abre a porta. Entra rapidamente e fecha a porta imediatamente. Acende a luz da entrada tira o sobretudo e vai pela casa fora acendendo tudo quanto é luz. Na mesa descobre uma caixa de fósforos e acende o cachimbo.

Os lobos não perceberam. Mas sentem a falta do homem. Metem o rabo entre as pernas e dispersam-se. Contra a lua que apareceu no céu recorta-se o lobo que uiva. Como se de um sinal se tratasse os lobos dispersos dirigem-se para a sede do medo. Planeiam os trabalhos do medo cuidadosamente na cabeça do homem.