a professora de 2004

Nos dias mais calmos da vida, saio de casa para a leitura do jornal da manhã, acompanhada de café e água mineral. Aproveito também para desenhar e escrever à mão num caderninho de folhas soltas, fazendo exercícios de salvação dos meus dedos tolhidos pela artrose da idade, pelos teclados das máquinas e na perseguição de ratos que teimo em domesticar.

Assim estava eu escondido nesse meu canto de café, quando ouço gritar o meu nome ou parecido, logo seguido de uma melopeia sobre a Escola José Estêvão. “Já não te lembras de mim? É natural, mas eu sim eu lembro-me bem de ti. Ainda estás na escola, não?” Puxei pela memória dos milhares de rostos que vi na escola e tenho de reconhecer que a cara que me fitava não me é estranha. Devo ter assentido nesse reconhecimento vago. Tanto bastou para ouvir uma reclamação gritada contra a situação, contra as colocações de professores, contra o Ministério, contra a corrupção, contra tudo e todos. Em calão claro, grosseiro. E a história gritada para todo o café: “Concorro todos os anos, já há cinco anos que não sou colocada, não tenho dinheiro, agora estou à espera do rendimento mínimo, …” Finalmente, em tom ligeiramente mais rouco, pediu que lhe emprestasse dois euros. Do pouco dinheiro disponível, dei-lhe a única nota que tinha. Quando ela se foi com o dinheiro, ouvi-a pedir o troco da nota para ir à máquina comprar cigarros. Enquanto saía do café, ainda gritou: “Sei muito bem onde te encontrar, quando tiver o dinheiro”.

Podia vir aqui falar de uma irritação surda contra ela que ia fumar o dinheiro. Mas não me sobrou irritação – só uma funda turbação e muita tristeza. Não só a mim: nenhuma outra fala humana se ouviu durante a altercação.

O que é que é injusto? Sabemos que as crianças não podem sofrer com a administração de ensino por uma pessoa que perdeu a identidade na espiral de desgraça em que se perdeu a professora que nos enfrentou no café. Mas desejamos ardentemente que seja colocada como professora se esse for o seu direito! Só podemos revoltar-nos por não cuidarmos que cada pessoa possa cumprir-se num destino digno e útil. Se tivesse sido professora nos últimos cinco anos, esta mulher seria completamente diferente?

A pessoa que me enfrentou no café deixou-me diferente, tocado pelo seu assomo de arrogância trágica. Como uma mágica unidade estatística saltou dos relatórios dos governos. Para não me deixar indiferente.

[o aveiro; 8/1/2004]