a estrada

Maria Joana atravessa a rua em passos largos como sempre. Imita a mulher que caminhava à sua frente e agora morreu.

Desde pequena, Maria Joana tentava acompanhar a única mulher que conhecia, o que a obrigava a correr todo o dia.

A mulher, à sua frente, não parava. Sem saber muito bem de onde vinha e muito menos para onde ia. Hoje, Maria Joana interroga-se sobre aquela azáfama dos pés na estrada.

Quando a mulher adoeceu, Maria Joana sentou-se ao seu lado na beira da estrada. Já estavam ali há tempo demais, quando foram abordadas por pessoas fardadas. Serviços de emergência! – ouviu-os dizer.,

Maria Joana ficou a saber que se podia parar a qualquer hora. Infelizmente, sem ter tido tempo para perguntar à mulher para onde ir quando não há quem seguir. A viagem no carro das emergências ainda a baralhou mais.

Uma senhora, que lhe disse ser Assistente Social, veio ter com ela para lhe perguntar se a senhora que ela tinha seguido até ao hospital era sua mãe. Ela não sabia muito bem, mas confirmou. Quando a senhora lhe perguntou como se chamava, ela imitou as duas palavras que a mulher soltava de vez em quando: Maria … Joana.

Foi então e assim que ganhou uma mãe e um nome.

A senhora Assistente Social disse-lhe que a mãe inda morrido e perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Ela retorquiu que tudo o que precisasse estava no saco da mãe.

Foi assim e então que ganhou um saco.

E meteu pernas ao caminho. Sem pensar, chegou a uma estrada que atacou em passadas largas.

Uma menina seguia o mesmo caminho e um pouco atrás imitava as passadas largas, começando a correr logo que se atrasava. Sem nunca passar à freme de Maria Joana.

Meio a cantarolar, Maria Joana dizia,: …Maria …Joana! E nunca parava. Parava, claro, mas raramente. Claro que tinham de parar, mas era tão raro que parar nem ficava na memória.

Para a Maria Joana a vida durava enquanto andava. Mais nada. Só estrada.