9 de maio de não sei que ano

– Que estás tu a ler? Apaga o candeeiro e dorme.

Quando lhe sentia os passos, já não tinha tempo de apagar o candeeiro e fingir que estava a dormir. Escondia o livro debaixo do travesseiro e fingia-se a pensar. A mãe ralhava-he mansamente:

– Com que então a pensar na morte da bezerra? Vamos lá a dormir que amanhã vem o ti Conde, logo de madrugada, com a debulhadora.

Nada é pior do que ficar sem saber como é que o herói vai resolver a situação. E durante o dia não havia hipótese de ficar a saber. Com um bocadinho de sorte só lá para o toque das trindades, depois de dar comida ao gado, e enquanto o irmão tirava o leite às vacas, é que podia voltar à história e ficar a saber. Nos dias de maior expectativa pelo que se estava a passar no livro, jurava a si mesmo que nunca mais começava ouro livro. Aquele, já que o tinha começado, tinha de o acabar.

Embora todas aquelas histórias se passassem na Rua do Ouvidor ou do Catete não lhes resistia. Não sabia se isso se devia aos assuntos das histórias ou ao facto de terem vindo naquela mala que o pai tinha mandado do Brasil, acompanhada da promessa de vir também logo a seguir. Hoje, à distancia de 20 anos, senta-se a pensar no irmão que foi ter com o pai ao Brasil. Nem um nem outro voltaram mais. Vê o pai através daquela mala de livros, agora já todos destruídos, pasto da estrumeira. Do irmão recorda as cantigas da moda. Letras inteirinhas.

A mãe tem  olhos maliciosos. E quando ele vai à aldeia, há-de dizer a propósito de qualquer coisa:

– Lá estás tu a pensar na morte da bezerra!

 

escrito para o Dedo no Ar

dos  salvados (por José António Moreira)