a insustentabilidade da pobreza e a vulgaridade da riqueza

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(…) De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era uma espécie de mutilado que era preciso trasladar em longos e ruidosos veículos, cercado por motociclistas e guarda-costas e aguardado por ansiosos fotógrafos. É como se lhes tivessem cortado os pés, costumava dizer a minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser retratado) era  o princípio, o meio e o fim do nosso singular conceito do mundo. No passado que me tocou, a gente era ingénua; achava que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e o repetia o próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, contudo ninguém ignorava que a posse de dinheiro não traz mais felicidade nem maior tranquilidade.

– Dinheiro? – repetiu. – Já não há quem sofra de pobreza, que terá sido insuportável, nem de riqueza, que terá sido a forma mais incómoda da vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

(…)

Jorge Luís Borges. Utopia de um homem que está cansado.

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