beber a memória

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(…)

Alguns de vós  já devem ter notado com que hipnótica lentidão batem as pestanas de uma criança ao ouvir um velho evocar alguma coisa; como os lábios se  descerram febris, como a saliva passa lenta através da garganta. Não é de hilaridade a sua expressão, enquanto todo o corpo se aperta contra os provectos joelhos. Há nela a tensão imóvel dos animais ao mudar de pele, dos insectos em metamorfose; talvez se pareça com os rouxin´pis em pleno canto que, como se diz, têm uma forte temperatura e a frágil plumagem toda eriçada. Ela está a crescer, naqueles instantes; está a sorver com volúpia e tremura na fonte da memória: a água fúlgida e profunda de que ganha vida a percepção subtil.

(…)

Cristina Campo, Os imperdoáveis

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