o diz quem disse e o diz que disse

by adealmeida

09cp0011

(…) Não basta que as coisas que se dizem sejam grandes,  se quem as diz não é grande. Por isso, os ditos que alegamos se chamam autoridades, porque o autor é o que lhe dá o crédito e lhes concilia o respeito. As proposições filosóficas, para serem axioas, hão-de ser de Aristóteles; as médicas, para serem aforismos, hão-de ser de Hipócrates; as geométricas, para serem teoremas, hão-de ser  de Euclides. Tanto depende o que se diz  da autoridade de quem o diz. Dizer-se que a pintura é de Apeles,  ou a estátua de Fídias, basta para que a estátua  seja imortal e a pintura não tenha preço. Mas esse valor e essa imortalidade a quem se deve? Mais ao nome que ao pincel de Apeles, mais à fama  que à lima de Fídias. E o mesmo que sucede ao pincel e à lima, é o que experimentam igualmente a voz e a pena. Se o que diz é Demóstenes, tudo  é eloquência; se o que escreve  é Tácito, tudo é política; se o que discorre é Séneca, tudo é sentença. Talvez acertou o rústico o que tinha dito Salomão; mas no rústico não merece ouvidos, em Salomão é oráculo. De sorte, como dizia, que não basta que as coisas que se dizem sejam grandes, se quem as diz é pequeno. Elas hão-de ser grandes, e o autor também grande. E isto é o que temos no Evangelho, com uma  e outra diferença, ambas notáveis (…)

António Vieira. Sermão IV – Maria Rosa Mística