aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

Month: Fevereiro, 2013

a insustentabilidade da pobreza e a vulgaridade da riqueza

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(…) De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era uma espécie de mutilado que era preciso trasladar em longos e ruidosos veículos, cercado por motociclistas e guarda-costas e aguardado por ansiosos fotógrafos. É como se lhes tivessem cortado os pés, costumava dizer a minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser retratado) era  o princípio, o meio e o fim do nosso singular conceito do mundo. No passado que me tocou, a gente era ingénua; achava que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e o repetia o próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, contudo ninguém ignorava que a posse de dinheiro não traz mais felicidade nem maior tranquilidade.

– Dinheiro? – repetiu. – Já não há quem sofra de pobreza, que terá sido insuportável, nem de riqueza, que terá sido a forma mais incómoda da vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

(…)

Jorge Luís Borges. Utopia de um homem que está cansado.

otite

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E se além da proporção e correspondência quisermos especular e apurar mais com que propriedade e energia ordenou Deus que os ouvidos da Senhora tivessem tanta parte neste primeiro mistério, donde manaram todos os outros do Rosário, da natureza e ofício do mesmo sentido de ouvir tirou a resposta S. Bruno, filosofando excelentemente, e falando com a Virgem desta maneira: Suscipe Verbum in corde et in utero, o Virgo, quia per aurem ingredietur in te quod nascetur ex te: Verbum enim est, et via verbi auris est : Ouvi, ó Virgem, o anjo; recebei o que vos diz e anuncia na mente e nas entranhas, e não duvideis que o Filho, que há de nascer de vós, haja de entrar pelos ouvidos em vós. — Por quê? Porque esse Filho, que há de ser vosso, é a Palavra do Padre e a porta e o caminho por onde entra a palavra, são os ouvidos: Verbum enim est, et via verbi auris est.

Pe. António Vieira. Rosa Mística. Sermões

a bala disparada

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(…)

Se a bala que a pistola  dispara tivesse espírito sentiria que a sua trajetória estava pré-definida exatamente pela pólvora e pela pontaria, e se a esta trajetória fosse a sua  vida a bala seria um simples espectador da sua vida sem qualquer intervenção nela: a bala não se dispara a si mesma nem escolhe o seu alvo. Ora, por isso mesmo, a esse modo de existir não chamamos vida. Esta não pode sentir-se pré-determinada. Por muito seguros que estejamos do que nos vai acontecer amanhã vemo-lo sempre como uma possibilidade.(…)

Ortega y Gasset, Unas Lecciones de Metafísica, Lección II

utopus

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(…) nos seus primeiros tempos, o rei utopus ficou a saber que, antes da sua chegada, os habitantes haviam discutido violentamente sobre religião. E chegou à conclusão de que era fácil conquistá-los a todos, porque as diferentes seitas que lutavam pela nação, lutavam separadamente, e não em conjunto. Por isso, depois da vitória, decretou que cada homem podia seguir a religião que desejasse e que podia tentar  persuadir os outros a juntarem-se-lhe, amavelmente e com temperança, e sem amargura para com os outros. Se a persuasão falhar, as pessoas estão proibidas de usar a força ou de se entregarem a rixas. Se alguém argumentar a favor da sua religião de uma forma litigiosa, será castigado com o exílio ou com a escravidão (…)

Moore, Th, Utopia. LvII

se podemos perdoar tudo?

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Quando um filósofo escreve bem, podemos perdoar-lhe tudo até mesmo ser um filósofo analítico.

Gian-Carlo Rota, Indiscrete  thoughts.

a respeito de Ontological Relativity de W. V. Quine (1966)

a sombra cresce quando anoitece

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When pygmies cast such long shadows, it must very late in the day

Gian-Carlo Rota, Indiscrete thoughts.

a respeito de Recents Philosophers de J. Passmore    (1985)

beber a memória

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(…)

Alguns de vós  já devem ter notado com que hipnótica lentidão batem as pestanas de uma criança ao ouvir um velho evocar alguma coisa; como os lábios se  descerram febris, como a saliva passa lenta através da garganta. Não é de hilaridade a sua expressão, enquanto todo o corpo se aperta contra os provectos joelhos. Há nela a tensão imóvel dos animais ao mudar de pele, dos insectos em metamorfose; talvez se pareça com os rouxin´pis em pleno canto que, como se diz, têm uma forte temperatura e a frágil plumagem toda eriçada. Ela está a crescer, naqueles instantes; está a sorver com volúpia e tremura na fonte da memória: a água fúlgida e profunda de que ganha vida a percepção subtil.

(…)

Cristina Campo, Os imperdoáveis

metáfora

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(…)

A poesia é hoje a álgebra superior das metáforas.

(…)

Ortega y Gasset

parábolas e círculos

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(…)

Um homem que gosta de ler, um tanto desagradável, conta aos seus filhos a historia… acerca do famoso rabi a quem um aluno, que o admirava,  perguntou como é que o rabi tinha sempre uma parábola perfeita para qualquer assunto.

O rabi respondeu com uma parábola acerca de um recrutador do exército do czar que, ao percorrer uma pequena cidade, viu dezenas de alvos circulares de giz na parede de um celeiro, e todos eles tinham um buraco de bala no centro.

O recrutador ficou impressionado e perguntou a um vizinho que poderia ser este atirador perfeito. O vizinho respondeu:

“Oh, é Shepsel, o filho do sapateiro. Ele é um pouco especial”

O entusiástico recrutador não ficou muito convencido, até que o vizinho acrescentou:

“Veja, Shepsel primeiro atira e depois desenha os círculos de giz à volta dos buracos das balas”

O rabi sorri maliciosamente.

“É o que se passa comigo. Eu não procuro uma parábola que convenha a um determinado assunto. Apenas abordo assuntos para os quais tenho parábolas.”

(…)

 

John Allen Paulos, Era  uma vez um número. Bizâncio,  Lisboa:2002

a biblioteca que sonha os seus números

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(…) O número de palavras da lingua portuguesa é limitado, pelo que o número de frases de dez palavras também. Entre todas as frases possíveis obtidas, combinando de todas as maneiras possiveis dez palavras portuguesas, a maioria não têm qualquer sentido; entre as que o têm, apenas uma pequena parte define um número inteiro determinado. Há, portanto, um número ilimitado de números inteiros assim definidos, entre os quais existirá decerto um máximo. Juntemos um a esse número máximo e obtemos o número mínimo entre os não definíveis com dez palavras no máximo da língua portuguesa. Chamemos-lhe x. Como interpretar a seguinte frase de dez palavras: Seja x o número inteiro mínimo indefinível por dez palavras? (…)

Sobre o paradoxo de Richard, a respeito da Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges