a insustentabilidade da pobreza e a vulgaridade da riqueza

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(…) De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era uma espécie de mutilado que era preciso trasladar em longos e ruidosos veículos, cercado por motociclistas e guarda-costas e aguardado por ansiosos fotógrafos. É como se lhes tivessem cortado os pés, costumava dizer a minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser retratado) era  o princípio, o meio e o fim do nosso singular conceito do mundo. No passado que me tocou, a gente era ingénua; achava que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e o repetia o próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, contudo ninguém ignorava que a posse de dinheiro não traz mais felicidade nem maior tranquilidade.

– Dinheiro? – repetiu. – Já não há quem sofra de pobreza, que terá sido insuportável, nem de riqueza, que terá sido a forma mais incómoda da vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

(…)

Jorge Luís Borges. Utopia de um homem que está cansado.

otite

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E se além da proporção e correspondência quisermos especular e apurar mais com que propriedade e energia ordenou Deus que os ouvidos da Senhora tivessem tanta parte neste primeiro mistério, donde manaram todos os outros do Rosário, da natureza e ofício do mesmo sentido de ouvir tirou a resposta S. Bruno, filosofando excelentemente, e falando com a Virgem desta maneira: Suscipe Verbum in corde et in utero, o Virgo, quia per aurem ingredietur in te quod nascetur ex te: Verbum enim est, et via verbi auris est : Ouvi, ó Virgem, o anjo; recebei o que vos diz e anuncia na mente e nas entranhas, e não duvideis que o Filho, que há de nascer de vós, haja de entrar pelos ouvidos em vós. — Por quê? Porque esse Filho, que há de ser vosso, é a Palavra do Padre e a porta e o caminho por onde entra a palavra, são os ouvidos: Verbum enim est, et via verbi auris est.

Pe. António Vieira. Rosa Mística. Sermões

a bala disparada

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(…)

Se a bala que a pistola  dispara tivesse espírito sentiria que a sua trajetória estava pré-definida exatamente pela pólvora e pela pontaria, e se a esta trajetória fosse a sua  vida a bala seria um simples espectador da sua vida sem qualquer intervenção nela: a bala não se dispara a si mesma nem escolhe o seu alvo. Ora, por isso mesmo, a esse modo de existir não chamamos vida. Esta não pode sentir-se pré-determinada. Por muito seguros que estejamos do que nos vai acontecer amanhã vemo-lo sempre como uma possibilidade.(…)

Ortega y Gasset, Unas Lecciones de Metafísica, Lección II

utopus

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(…) nos seus primeiros tempos, o rei utopus ficou a saber que, antes da sua chegada, os habitantes haviam discutido violentamente sobre religião. E chegou à conclusão de que era fácil conquistá-los a todos, porque as diferentes seitas que lutavam pela nação, lutavam separadamente, e não em conjunto. Por isso, depois da vitória, decretou que cada homem podia seguir a religião que desejasse e que podia tentar  persuadir os outros a juntarem-se-lhe, amavelmente e com temperança, e sem amargura para com os outros. Se a persuasão falhar, as pessoas estão proibidas de usar a força ou de se entregarem a rixas. Se alguém argumentar a favor da sua religião de uma forma litigiosa, será castigado com o exílio ou com a escravidão (…)

Moore, Th, Utopia. LvII

beber a memória

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(…)

Alguns de vós  já devem ter notado com que hipnótica lentidão batem as pestanas de uma criança ao ouvir um velho evocar alguma coisa; como os lábios se  descerram febris, como a saliva passa lenta através da garganta. Não é de hilaridade a sua expressão, enquanto todo o corpo se aperta contra os provectos joelhos. Há nela a tensão imóvel dos animais ao mudar de pele, dos insectos em metamorfose; talvez se pareça com os rouxin´pis em pleno canto que, como se diz, têm uma forte temperatura e a frágil plumagem toda eriçada. Ela está a crescer, naqueles instantes; está a sorver com volúpia e tremura na fonte da memória: a água fúlgida e profunda de que ganha vida a percepção subtil.

(…)

Cristina Campo, Os imperdoáveis