reflexão sobre um saco azul e sofá

Assim como eu estou habituado a abrir o meu porta moedas, Luis Roldana estava habituado a abrir um saco azul.

Luis Roldana estava habituado a tirar do saco azul mihões, enquanto eu me habituei a tirar do meu porta moedas tostões.

Em muitas coisas somos diferentes, como já viram:  eu uso porta moedas, ele saco azul;  eu tiro os tostões quando há, ele tira milhões que sempre há; o porta moedas é meu, dele não é o saco azul; eu estou condenado à pobreza, ele vai ser condenado à revelia que a riqueza pode dar;  eu sou um socialista de merda, ele é um socialista que nadou na merda do poder;  eu paguei os impostos sem me terem perguntado, ele não pagou os impostos e perguntaram-lhe se queria pagá-los;  ambos podíamos ser portugueses, mas por acaso Luis Roldana é espanhol;  eu sou professor e ele, por amor da pátria e do socialismo, até chefe da guarda foi;  eu posso ser preso amanhã e ninguém tem motivos para aflição, mas se ele for preso, já o disse, muita gente vai suar e é, por isso, que ele não vai ser preso, enquanto eu… não sei.

Em muitas coisas somos parecidos: ambos temos nariz e dele somos senhores, embora eu não precise de o alterar; ambos temos boca para falar e comer, olhos para olhar e pernas para andar;  ambos temos alma e somos pecadores.
Talvez que, ao aperceber-se destas minhas semelhanças com o Luis Roldana, o senhor das finanças me atenda no sofá.

 

Aveiro, 2004:  talvez por alturas de alguma declaração de  irs

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