purgatório

E  foi o último toque. A mão de deus puxou o cordão do sino e o último toque ecoou no corredor norte do purgatório.

As almas abandonaram as aulas de remediação e dirigiram-se às almaratas entre risos e gritos de meninos em férias. E começaram a arrumar as coisinhas que são bem poucas e, apesar de existirem, não se veem.

Ouviu-se no altifalante a voz do anjo chamando para a formatura na parada pré-celestial. Na presença de deus, o anjo fez a chamada para o céu: um depois de outro.  A cada chamada, ouvia-se um ligeiro som de bater de asas  em frente. À media que o anjo citava, deus asava.

Só uma das almas não tinha conseguido salvar-se com as aulas de remediação. Sem asas, esperou a sentença de deus: ou era enviada para o inferno ou ia aturar mais um ano de remediações, Deus demorou a decidir. E, finalmente, atendendo a que aquela alma já o tinha feito tropeçar, já o tinha injuriado e achincalhado, já era a décima segunda vez que remediava, deus declamou com a sua  voz de baixo, firme mas cheia de piedade, a sua sentença sem sujeito e sem verbo: “irremediável alma danada!”

Sem esperar pela ordem de dispersar ou pela ordem de marcha, a alma danada lançou-se na sua queda livre, rindo alegremente. As outras almas, que tinham aprendido tudo sobre a salvação mas ainda não tinham sido ensinadas na arte do voo, uniram as asas na vertical e deixaram-se cair atrás do riso da alama danada.

O anjo aflito começou a gritar ordens ao altifalante quando já ninguém o ouvia. Deus manteve-se calmo e fechou aos seus olhos diversos alçapões.

Assim as almas salvas foram caindo uma a uma em si mesmas. E delas e da remediação sobrou um monte  de nada.

Só a alma danada continuou a sua queda através dos alçapões de deus. E foi a única que reaprendeu a respirar de alívio indo à sua vida de costas voltadas para a escola.