Professor

Aquele professor nunca falava nas aulas, mas tinha um dom especial: escrevia tudo muito claro  colocava os problemas que, constituindo um verdadeiro desafio, nos levavam a tudo tentar para os resolver.

O facto de ele nunca falar e da sua exposição ser tão bela, escrita no quadro e cuidadosamente passada para os meus cadernos, sempre exerceram sobre mim um estranho fascínio. Fazíamos  conjecturas sobre a sua personalidade extravagante.

Um dia não resisti a falar-lhe provocadoramente a respeito de uma demonstração belíssima que me oferecera branco sobre o preto. Como ele não me respondesse, comecei a pôr em causa tudo o que dizia respeito a demonstrações e a perguntar-lhe “o que era afinal uma demonstração?”  “se aquilo teria algum interesse?”  “se afinal haveria alguma verdade naquilo?”, etc.

Aproveitei para despejar todas as minhas dúvidas supostamente epistemológicas sobre os problemas da demonstração em matemática, acicatado pelo seu sorriso humilde e a sua falta de respostas.

Parecia-me que ele nunca tinha pensado naqueles problemas e senti-me um autêntico vencedor naquele combate, embora, pelo meio da conversa, tenha esclarecido toda a minha admiração pelas suas exposições notáveis. E continuei a assistir às suas admiráveis, mas silenciosas, aulas.

 

Hoje sei  que, naquela batalha, estive a esgrimir um florete de palavras contra um surdo-mudo.

 

Aveiro, Abril de 1993