vítima de irene k.

Passava os dias a fugir dos gatos de irene k. Ela assistia a tudo e divertia-se com a minha aflição. Todos os dias.

Quando os gatos não andavam por perto, acontecia ela olhar-me para dentro dos meus olhos assustados. E eu lia uma desculpa nos seus olhos tristes: afinal eu era uma vítima dos gatos de irene k e não de irene k.

Nesses momentos de paz, irene k alimentava-me com sobras do seu queijo. E houve um tempo em que pensei que ela me alimentava para eu me manter rápido e ágil e prolongar a tortura da minha vida, como se  alimentasse o jogo da sua própria maldade.

Quando cresci, deixei de aparecer para o jogo do gato e do rato. Vi, de longe, que Irene K entristeceu. Percebi que o rato frágil não era mais do que o seu pesadelo. E um dia decidi voltar. Comecei por lhe sussurrar: Não chores mais, Irene. Eu voltei… E quando ela apavorada me pressentiu, acrescentei em voz mais alta: …e não como vítima. Ela acalmou e adormeceu.

Não sei o que ela percebeu. O que eu disse? O que ela ouviu?