pessoa, eu e o pobre de pedir

Há domingos em que me vou sentar no café a escrever pequenas histórias. Como já não posso escrever com as canetas que deus me deu para fugir do destino e da polícia, dactilografo no teclado de um computador portátil, pequeno como eu.

Um pobre de pedir por profissão que se lhe vê na cara, vem mansamente sentar-se na ponta do banco e fica para ali a observar as hesitantes letras que aparecem piscando sob as minhas ordens. Não me pede os cigarros que tem por hábito pedir pelas mesas. Quando tem a certeza que já me habituei à sua presença, levanta-se e vai-se embora. Com ele leva os 60 escudos, por minhas mãos providencialmente pousados na mesa. Finjo que não dou por ela.

Um jovem pobre, mais ou menos bem vestido, esperou que eu saísse do carro para me pedir 200 escudos, tanto quanto lhe falta para poder ir almoçar. Dei-lhe todos os trocados. Ele contou-os cuidadosamente para reclamar a falta de 15 escudos.

Hoje abordou-me na rua, pedindo novos 200 escudos para comer.
O quê? – perguntei eu.
Comida – respondeu pacientemente.
Outra vez? – insisti eu.
Eu como todos os dias – garantiu-me.

Dei-lhe os 200 escudos.

No café, bebida a bica, descubro que não tenho dinheiro para pagar. Pego num papel e desenho cuidadosamente uma nota de dívida de 60 escudos. O pobre de pedir por profissão aproxima-se sorrateiro e leva-me a nota de dívida. Estou a escrever outra nota de dívida quando chega o moreira. Cedendo às suas insistências, deixo-o pagar a minha bica. Não há qualquer dignidade nisto.