o que anda comigo

Trago sempre duas pastas dentífricas

dentro da pasta onde guardo também alguma roupa interior

e lenços de assoar.

Nunca me foram úteis as pastas dentííricas

porque sempre me esqueci das escovas,

embrulhadas  para esquecer.

 

Mas a pasta sempre me foi útil

para guardar os pequeníssimos sabões e as toucas

dos quartos dos hoteis

que me perseguem há mais anos que

os pequenos frascos de compota que um avião me fez cair no regaço.

 

Hoje, ao partir, verifiquei as duas pastas dentífricas

na pasta de cabedal

e verifiquei também, tarde demais embora,

que me esqueci dos bilhetes para a ópera,

para além das escovas de calçado.

 

Não me fazem falta,

porque também me esqueci dos dentes

dentro do seu copo de água nocturno,

de onde costumam rir-se de mim

enquanto eu bebo a água que respiram

por suas guelras mordentes.

 

© Arselio Martins escreveu

para ser dito por José António   Moreira

na Rádio Independente de Aveiro em  22 de Agosto de 1993,

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