o coleccionador de perdigotos

Quando foi que isso aconteceu? O colecionador das memórias alheias assim pergunta, até ao pormenor pergunta.

Quando o falante deixa cair um facto fora da boca, o coleccionador pergunta pelo  documento comprovativo, pede fotocópia. Depois, o colecionador vai comparar o facto com o facto, talvez lhe tire as medidas à cintura com a sua craveira intelectual, atribui pesos devidamente ponderados, talvez faça a média, talvez não resista a publicar uma interpretação.

O coleccionador ouve todas as verdades e todas as mentiras. Depois de as matar com todos os cuidados, o coleccionador atravessa-as com um alfinete e espeta-as sobre um fundo de flanela verde.

Quem vê a exposição de todos os factos, devidamente conservados, não sabe quais são as verdades nem quais são as mentiras. Mas cada um escolhe as suas verdades, fotografa-as e mostra-as aos netos, para que, mais tarde, estes possam ver no espelho da família, a sua sagrada família.

O colecionador está pronto com as suas redes, os seus alfinetes, fotocópias. Com o seu trabalho persistente, espera estar a ditar ao futuro uma linha do passado. Não há outros ditados. Nem há outras ditaduras.

Todas as ditaduras têm passado. Nenhuma tem futuro. Ninguém melhor que o colecionador sabe disso.

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