nuvem

Ninguém passa por uma nuvem daquelas.

Ia eu a tentar passar, mas acabei por desculpar dois minutos da minha ascensão para olhar para ela. E não resisti a entrar. Mais minuto, menos minuto.

Mal dei os primeiros passos, senti as meias húmidas e, logo logo, tinha os sapatos cheios de água.  Mas continuei mesmo assim, até porque finalmente sentia a cabeça fresca depois de algumas horas de exposição ao sol. Distraído pela paisagem, não dei muita importância à água que me dava pelos joelhos. De repente, a água começou a enterrar-me pela boca aberta maravilhada. Esbracejei um pouco e senti-me melhor, respirando o ar húmido.

E voltei para trás. Só então reparei que não havia caminho atrás de mim. Nem sinal das minhas pegadas. Não havia sinal de mim. E continuei então para a frente já a nadar desesperado. Atrás de mim, a nuvem caía.

Parei um momento. E deixei-me afundar. Mas a água em que me afundava estava a cair enquanto eu me afundava e, em pouco tempo, já não tinha onde me afundar. E caí na inconsciência.

Porque as asas não me secaram a tempo de recomeçar a voar, vim a cair à porta do inferno inundado. Um diabito olhou-me divertido e fez-me sinal para eu o seguir. Secou-me as asas, brincou comigo por momentos antes de me abandonar. Podia ter tentado voar. Mas desliguei os olhos para não ver e as asas para não voar e integrei uma brigada de sapadores que procuram nas correntes lamacentas do inferno o rio de fogo que lhes prometeram em vida.

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