J. R.

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A mulher tinha cinco dentes de ouro e ele não tinha dentes que não fossem de ouro.
Quando ele chegou do Brasil, de carro de aluguer e com aquela mulherona atrás, pensámos que ele era milionário. Mais milionário ainda nos parecia quando ele ia de carro de aluguer ver os sobrinhos que estavam a estudar em Coimbra. Quando ele me ofereceu uma caneta Ero, eu pensei que ele era só sucesso.
Pensava que as terras que ele tinha vendido não eram mais do que os seus amendoins. Mas a minha avó sabia quem a mulherona era e sabia tudo a respeito do nosso tio milionário. Depois de ele ter gasto todo o dinheiro que tinha recebido e outro que não tinha, a minha avó pagou-lhe as dívidas do carro de aluguer e outras, comprou-lhe um bilhete de ida para o Brasil e foi levá-lo ao barco para ter a certeza que ele partia. E fez tudo com a maior discrição. De tal modo, que ainda hoje não sei se ela chegou a molhar a sopa naquele filho de 50 anos, quando da sua breve passagem pela minha infância.