sorriso da eternidade

“Doem-me as costas. Uma ventania cortante vergasta-me a cara. Choro de dor a cada passo que dou e sinto a cara cortada pelo vento e sulcada por velozes lágrimas vindas do alto em busca do refúgio que eu já não sou. Arrepio-me de frio e acelero as passadas.

Para onde vou? Para onde hei-de ir? São as marcas na lama que fazem o meu caminho e indicam o meu destino. Sempre em frente, sem saber para onde, vou ao encontro do exacto lugar em que o meu corpo repouse e descanse.”

Assim pensava Joaquim da Cruz, enquanto caminhava encurvado e a tremer.

Ao dar a curva da rua de deus dará, Joaquim teve de fazer uma finta dolorosa para não chocar de frente com a mulher ali plantada, a mão estendida à caridade pública. Pareceu-lhe que a mulher era jovem e bela e tinha um sorriso calmo e bondoso.

Joaquim da Cruz fez um movimento doloroso para tirar a carteira do bolso do casaco. A nota que deixou cair para a mão estendida voou e foi cair no passeio ao lado da mulher. Esta não se mexeu, nem alterou o sorriso. Continuou com a mão estendida. Joaquim parou. Olhando para a mão estendida, Joaquim sentiu que o gesto não era de pedir mas de dar e instintivamente estendeu a sua mão até à mão dela. A mão dela estava fria, mas Joaquim sentiu-se agradavelmente confortado, quase feliz e sem dores. Ficou assim de m ̃ao dada, naquela posi ̧cão de pedir e receber ou receber e pedir. Feliz.

No dia seguinte ainda ali estava Joaquim da Cruz, parado, de mão dada com a estátua. Quando os bombeiros o foram buscar para o levar para a morgue, ele ainda sorria.