Contra a coerência do poder

Em todas as reuniões dos últimos dias, e foram muitas, ouviu-se o ululante 25 de Abril, mesmo que dele se não falasse. Em todas elas, procedi de forma incoerente, porque a coerência, a razão e os consensos são as palavras em que tropeçam os passos do meu povo.

Um povo não tem a coerência que lhe querem dar. Um povo não tem a razão que lhe pretendem dar. Os dias podem vir a parecer uma coerência, mas não são momentos de coerência. O povo quer a razão que lhe assiste e nem pretende dar razão nem que lhe atribuam razões que não são as dele. Um povo não tem os consensos em que o pretendem mergulhar para melhor o atar à corrida que a glória dos outros promove.

Há homens e mulheres que reescrevem a sua vida passada, que inventam hoje sentidos para os passos que deram há vinte e tal anos e, com tal arte o fazem, que os seus passos de hoje são os passos seguintes e  consequentes. É a inteligência dos filhos do poder.

Eu só sei que dei passos e que nem sabia para onde me conduziam. Eles confundiam-se com o caminho. E eu não era um peregrino com destino traçado. Só sabia que o próximo passo era o futuro incerto e que este passo era o presente incerto.

A exaltação dos simples é esta incerteza de não conhecer de antemão o milagre que se segue.

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