carta aos ombros…

Lembrem-se de tudo o que puderem:
de todos os senões, de todos os safanões, de todas as manifestações, de todas as ilusões, de todas as desilusões, de todas as dúvidas, de todas as certezas e das que deixaram de ser certezas,
de todas as gargalhadas, de todas lágrimas,
da vida das derrotas, das vitórias, das derrotas,
dos amores, dos desamores, dos amores, da amizade, da confiança,
das anedotas que contámos e até das anedotas que fomos, das orações que cantámos, das orações que deixámos escapar sem querer, dos sermões que não ouvimos, dos sermões que gritámos, dos punhos caídos, dos punhos erguidos, das lutas e das tréguas, dos compassos e das réguas, das medidas que tomámos, do que não medimos, dos disparates,
daquele poema que chorámos em vão, daquele outro que nos levantou do chão, da arena,
dos livros, dos livros de histórias, dos livros de história, dos livros,
da parede em que colámos as mãos e os pés, das paredes que pintámos, do poema que transcrevemos na parede na escuridão e na solidão, da parede onde despejámos a raiva, dos lamentos sussurrados ao ombro companheiro contra a parede que nunca abriu brecha,
do cartaz, do jornal mural, da moral
da vida,
do poema que nos alimentou, do poema natural, das sagradas escrituras, do cântico dos cânticos,
dos cânticos guerreiros, da luta pela paz, dos cânticos pela liberdade, da fraternidade do coro das vozes, da música,
dos sonhos, dos pesadelos, do medo, da cobardia, da coragem, da dívida ao outro ali ao lado com as mesmas dúvidas e o mesmo medo quando demos o passo em frente, naquele dia, ou num outro em que recuámos para uma barricada que nada garantia,  das trincheiras,
das fraquezas que se fizeram força, das forças que deram em nada,
do poema que a vida de cada um é combinada com as outras vidas,
da tragédia, da comédia, do espetáculo que demos e damos,
do poema que relemos a lembrar quem somos ainda para nós e nos outros,
nem mais
que uma festa é
o abraço da vida de que não nos arrependemos
lembrem-se de tudo o que ela é, das somas, da diferença e da indiferença, dos produtos, das divisões
lembrem-se  de tudo, do espírito dos lugares quando os habitámos,
do quartel, das escolas, das associações, das cooperativas, dos partidos
da impossível fé e da fé possível
sem  rendição e sem redenção,
na esperança de sermos esquecidos
na foz da alegria vital
em que nos afogámos  sem naufragar,
lembrem-se da alegria do luar
que ninguém mais viu.
lembrem-se de tudo
mesmo fingindo adormecer
em posição rígida e tensa  de felino que espreita e espera
a próxima primavera,
fechem os olhos enquanto se lembram
de tudo.
carta escrita aos compassageiros da viagem maior da vida
neste ano de 2013