carnes verdes

Quando era jovem, o artista benzia-se antes da primeira pincelada. E agradecia a Deus quando completava o quadro. Todos os críticos que sabiam da sua fé falavam em inspiração divina quando falavam da cor e falavam da menina madalena do modelo.

A menina madalena não se importava com os comentários. Todos os dias saía da sua missa matinal e ia para o seu emprego em casa do pintor jovem. Antes de se despir para posar, benzia-se e, qualquer que fosse a posição ou a pose, os seus olhos sempre denunciavam um ponto de encontro dos céus.

As 500 obras do pintor, enquanto jovem, deram a conhecer a toda a população as diversas partes do corpo da menina madalena.

Como pintor de um só modelo, o artista chegou à idade dos porquês. Aos vinte anos, embora ainda maravilhado com a menina madalena, o artista teve de reconhecer que o assunto estava esgotado.

Mas a sua especialização em carnes revelou-se redutora demais. Hoje o artista está cheio de sucesso, mas doente. Passou um ano a pintar as peças penduradas na câmara frigorífica do talho de sua mãe.

Os entendidos continuam a falar de inspiração, porque ele continuou a benzer-se antes da primeira pincelada e quando se referem ao modelo não podem deixar de se lembrar da menina madalena.

A menina madalena sempre era cá uma vaca.