as quatro facturas

Andava eu atrás de dois dedos de prosa

quando encontrei três escriturários

de uma empresa de obras públicas.

Pedi-lhes que escrevessem

em letra de forma

quatro facturas:

— uma de meio quilo de cristais roubados

na mesquita;

— outra de duas crianças adoptadas

por três famílias ricas que as distribuiram

entre elas de forma pouco humana

mas equitativamente;

— a terceira para calar a boca de um tabelião

algarvio que suspeitava do barman

do hotel de aljezur

ter fugido com as suas três filhas

e exigia por isso recibo;

— a quarta em nome de uma sociedade editora

que se tinha comprometido a publicar este texto

em troca de uma módica quantia de lugares

comuns

no parlamento austríaco.

As facturas ficaram lindas

e estão expostas

na biblioteca nacional

entre outras obras caligráficas

muito antigas.

O mérito é todo meu.

© Arsélio Martins

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