Abril

Não pedi nada ao meu tempo. No entanto, o meu tempo queria bater as palmas nas minhas costas. O torpor era a besta que adormecia no meu colo.

As palmas acordaram a madrugada e afogaram o torpor na neblina que cobria o rio. As gaivotas gritaram e, batendo as asas, procuraram melhor poiso para não perder pitada.

As palmas do meu tempo soaram violentas, mas cheias de ternura. No palco, um polícia  ainda disparou uma rajada com a sua metralhadora. Com pontaria. Hoje mostra a cara, para que um gatilho misericordioso lhe corte o tropel das bestas que não param de correr na sua cabeça de besta.

Mas as palmas ainda soaram mais alto. Cada vez mais alto. Os espectadores passaram a ser o espectáculo. Um actor velho, ajeitou o monóculo e tentou chamar a atenção com uma voz de monóculo. Quando olharam aquela voz, optaram por reformá-la contra a sua vontade. Ainda se ouve trémula. Aquela actriz velha ainda não percebeu que não há papéis que prestem.

Não pedi nada ao meu tempo. E, apesar disso, o meu tempo deu-me mais do que eu tinha imaginado. Do que nos deu para viver, fomos nós entregando para ser gerido por governos e generais, … A multidão já não é o espectáculo e está de nariz especado nos vidros das televisões, enquanto outros falam do tempo em que esconderam o rabo entre as pernas.

O tempo ameaça tirar-me, pela boca de todos aqueles bichos, o que eu não pedi, mas ele prometeu.. Ao fazer assim, o tempo está a bater as palmas de novo. O tempo é o despertador do meu tempo. E é, por isso, que eu tenho entredentes o cravo que a criança do meu tempo então pôs no cano da minha espingarda.