à beira da estrada, a biblioteca é itinerante…

biblioteca itinerante

biblioteca itinerante

Quando passava por Lourosa, vi urna casa bem sólida e fixa corn um letreiro claro:

“Biblioteca Itinerante”.

Achei irónica aquela designação para uma casa que ali está há muitos, muitos anos e

ali vai estar por muitos e muitos anos. Embora seja verdade que aquela casa, como

todas as suas vizinhas, são itinerantes pelo universo, não deve ser por isso que a

casa é uma biblioteca itinemnte.

De facto, não é por isso. O que é itinerante é o livro que a habita. 0 livro habita esta

ou aquela casa,  porque a casa não lhe interessa. O que lhe interessa é habitar o leitor

e mudar de leitor, ocupando os diversos lugares que os leitores diferentes são. Ao

passar de casa em casa, o livro é ifinerante mas procura fixar-se em cada um dos

lugares. Ao passar de mão em mão, procura fugir da estante ao encontro dos olhos.

A estante representa o risco do pó. As camadas de pó podem tomar o lugar das

capas.

Os livros gostam de olhos azuis, castanhos, negros, amarelos, verdes. Os livros

gostam dos dedos que viram folhas. Os livros gostam de ser itinerantes.

Afinal quem nos dera pensar que não há bibliotecas fixas. Que são todas itinerantes.

Gosto de pensar que aquela  “biblioteca itinerante” de Lourosa é mesmo itinerante. E

já não acho nada irónico que aquela casa seja o continente de uma biblioteca

itinerante. Todas as bibliotecas deviam chamar-se assim.

escrito para Pretextos ditos por José António Moreira na Rádio Independente de Aveiro na última década do século passado