aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

14, 1º após 13

Um dia, eu passo pela solidão dos outros. Outro dia e passeio pela minha solidão perdida entre outras. Neste dia, o primeiro depois do anterior, procuro encontrar-me com outros perdidos em suas solidões. De certo modo sei que não se pode encontrar quem está sozinho. Mas posso sempre fazer alguma coisa por eles e por mim.

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repito-me: antigo, perdido e achado

[corno de texto, o textículo virtuoso]

Dou as duas voltas antes de me deitar.
A cabeça de cão que uso não me pesa
Tanto como a cabeça de homem
Ou como aquela de criança com que nasci
E se foi ampliando até mais não poder.

Suportar os gestos do pequeno corpo sem cauda
Lastimar a paralisia do nervo comandante
Não ter cauda
Não ter o gesto completo
Da felicidade canina.

Dou as duas voltas antes de me deitar
Quando me deito adormeço
Sem permitir os sonhos
Nem o sobressalto do pensamento
Nem o assalto à cabeça

Do meu cão de guarda guardo as ladradelas ansiosas
De caminho para o poço fundo
Adormeço
Lembro a agonia do cão que pareço
Desato trelas
Desato-me a ganir
Chorar liberta
Torna brilhantes os olhos baços.

Dou as duas voltas antes de me deitar.
Vi o filme inteiro

quanto mais ando sem…

Quanto mais ando, sem quaisquer problemas, mais dores sobram para as paragens: nos músculos e articulações dos membros superiores e inferiores esforçados pelo caminho movimentado que passa ele sim por mim sem que se apresente. Há sempre alguém para dar nomes aos caminhos.

E é por isso, que leio nomes de caminhos e lugares nas placas como sei que lia as placas com os nomes dos participantes em encontros e desencontros em que participei

e ou até organizei; para esses ainda me lembro em abstracto dos escritos nomes de inscritos às centenas em folhinhas e nos teclados de computadores para serem despejados em crachás(?)

sem ter guardado mais que esta informação de ter passado por eles ou de eles terem passado por mim sem saber mais de qualquer deles do que sabia antes que era nada. Sobrou nada disto tudo?
Alguma coisa deve ter sobrado, alguma pessoa de que escrevi e ou li o nome (passado pelos meus lábios) entre outros deve ter ficado comigo de memória por alqum tempo até que o tempoda sua emória visitou o seu jazigo em mim e sossegou. E é só isto o que sei, o que sobrou de tanto enamoramento e encontro.

Quando por acaso um reencontro inclui reconhecimento, visito o jazigo onde está descansado da canseira que foiconhecermo-nos ou pensarmos que assim foi. Não chega a haver exumação de qualquer ideia digna desse nome. Muitas vezes confirmo que neste citado jazigo na minha memória não sobrevive lá vivalma e não sei o que dizer para acabar a ser o mesmo de sempre a dizer disparates que são as respostas parvas que o esquecimento nos fornece em substituição da vida passada. E tudo recomeçar de novo quando o reencontrado sabe o que nós perdemos e nos aghuça o desejo do passado desancorado pela nossa cobardia e o nosso medo imenso de viver outra coisa senão o presente em passagem rápida que interessa viver sem memória futura.

Como um instantâneo que temos num último rolo da velha máquina fotográfica que nunca mandámos revelar até o perder de vista e de vez, assim também este presente encontrará o seu jazigo memorial sem original nem cópia…

volta e meia deito-me

para não assobiar.

pé ante pé

ando atrás do tempo dos lugares: passo pelos lugares que já não são o que eram e quase não vejo o que lá está agora e a obcessão é tal que nem nas fotografias depois os reconheço e finjo que são outros os lugares onde passo.

semedo

deixa-me  falar da morte com a tua vida.

Eu?

(…)

— E se acontecer — disse eu — que  a palavra “eu”  seja uma palavra sem qualquer sentido?”Eu” utiliza-se na linguagem do dia-a-dia exactamente da mesma maneira  que se utiliza “aqui” ou “agora”. Todas as pessoas têm o direito de chamar-se “eu”, e  ao mesmo tempo apenas uma pessoa de cada vez tem esse direito: a pessoa que está a falar.

Ninguém imagina que “aqui” ou “ali” significa alguma coisa em especial,  que existe alguma coisa por trás dessa palavra.

Então por que havemos de imaginar que temso um eu?

Ele pensa em nós. Sente. Fala. Mais nada Ou ele pensa aqui, dissse eu, pousando o dedo na testa.

— Se continuas com essas especulações, ainda dás em doido  — disse ela.

(…)

Lars Gustafsson. A morte de um apicultor.

rever a apilcudor

(…)

Neste momento, por exemplo, sinto uma dor latejante que daqui a alguns minutos me impedirá de continuar a escrever. Começa na coxa direita, bastante em baixo. Parece que um metal liquido se infiltrou na musculatura, um fio de ouro, talvez. Depois sobe para a virilha direita, e envia um feixe de fios de ouro, de uma incandescência branca, em direcção ao umbigo, à anca, à parte de trás da perna, um leque de ecos surdos desse ouro brilhante sobe até ao diafragma. Se me deito, a dor duplica. Se continuo sentado, espalha-se pelas costas. Não tem sempre o mesmo tom, as frequências e amplitudes desse ouro de brilho branco mudam constantemente, formam acordes muito bonitos, e por fim desafinam e tornam-se cortantes.

(…)

Lars Gustafsson. A morte do Apicultor

colaterais

Eu bem te pedi que fechasses a boca e nem mais uma palavra dissesses. Mas tu tinhas de espalhar a palavra e nada mais merecia a tua atenção.
Só depois percebeste que estavas a caminho do deustista.
Quando voltámos para casa ainda conseguiste abrir a boca e dar à língua para murmurar: Antes o inferno!

já mais de uma vez aconteceu…

em si mesmo

… descobrir-me a discutir comigo mesmo vendo mesmo  duas caras  na minha cabeça perdida mesmo.