espirrar os seios nasais

naqueles dias em que a primavera me castiga o corpo com comichões inesperadas

inibo a inspiração pelo nariz para não inspirar o pólen aéreo ou as asas de uma abelha ou vespa em voo picado ou

mais radicalmente  para não me inspirar porque umas vezes penso que sou alérgico ao pólen e

mais vezes penso que sou alérgico a mim ao meu corpo e à minha alma gémea os dois igualmente visíveis vizinhos de mim e

sei que as comichões me entram pelo nariz  e quando este as persegue até aos seios nasais  e

no vale entre eles se perde e  se distrai naqueles dias em que a primavera me castiga o corpo com comichões inesperadas

ou isso tudo é não mais que alegria como fora  alergia maiúscula  a minúsculas vírgulas ou pontos disfarçados nas cicatrizes

ou pontos de admiração do nariz ao pasmar com os seus próprios seios cheios e

sem  volúpia alguma e

com vergonha nenhuma

desalmado,

desalmai-me devagar mas sempre,
todos os dias, da minha vida vivida por mim
e mais ninguém, desalmai-me.
separai a minha vida das coisas em que penso
sem quere saber o que ou quem são
e é sobre essas, coisas e pessoas,
que me debruço em ânsias de as ver

onde estou, seja lá onde for,
desalmado

Re:começar todos os anos

No primeiro dia de 2004, escrevi este texto que agora repito. Só mudam os números.

Para todos os que se interessarem por isso, a minha vida só depende da vontade dos outros em viver bem o ano de 2019. Vivam bem, pois! Se não precisarem de fazer por isso por vocês mesmos, façam-no por mim. Eu mereço alguma compaixão. Cada um de nós merece.

Para mim, isto é coisa da idade, o que conta é que está passado. 2018 já cá canta e não vai constar da minha pedra tumular.

As minhas fotografias são todas a preto e branco, mesmo quando não parecem. Umas vezes, vejo o negativo; outras vejo pelo positivo. Ainda consigo fazer revelações. Não há qualquer angústia em saber. Também não me amofino quando finjo que não sei.

1/1/2019

repito-me: antigo, perdido e achado

[corno de texto, o textículo virtuoso]

Dou as duas voltas antes de me deitar.
A cabeça de cão que uso não me pesa
Tanto como a cabeça de homem
Ou como aquela de criança com que nasci
E se foi ampliando até mais não poder.

Suportar os gestos do pequeno corpo sem cauda
Lastimar a paralisia do nervo comandante
Não ter cauda
Não ter o gesto completo
Da felicidade canina.

Dou as duas voltas antes de me deitar
Quando me deito adormeço
Sem permitir os sonhos
Nem o sobressalto do pensamento
Nem o assalto à cabeça

Do meu cão de guarda guardo as ladradelas ansiosas
De caminho para o poço fundo
Adormeço
Lembro a agonia do cão que pareço
Desato trelas
Desato-me a ganir
Chorar liberta
Torna brilhantes os olhos baços.

Dou as duas voltas antes de me deitar.
Vi o filme inteiro