aposentos: reforma e reformatório

citações,notas de estudo, diatribes

volta e meia deito-me

para não assobiar.

pé ante pé

ando atrás do tempo dos lugares: passo pelos lugares que já não são o que eram e quase não vejo o que lá está agora e a obcessão é tal que nem nas fotografias depois os reconheço e finjo que são outros os lugares onde passo.

semedo

deixa-me  falar da morte com a tua vida.

Eu?

(…)

— E se acontecer — disse eu — que  a palavra “eu”  seja uma palavra sem qualquer sentido?”Eu” utiliza-se na linguagem do dia-a-dia exactamente da mesma maneira  que se utiliza “aqui” ou “agora”. Todas as pessoas têm o direito de chamar-se “eu”, e  ao mesmo tempo apenas uma pessoa de cada vez tem esse direito: a pessoa que está a falar.

Ninguém imagina que “aqui” ou “ali” significa alguma coisa em especial,  que existe alguma coisa por trás dessa palavra.

Então por que havemos de imaginar que temso um eu?

Ele pensa em nós. Sente. Fala. Mais nada Ou ele pensa aqui, dissse eu, pousando o dedo na testa.

— Se continuas com essas especulações, ainda dás em doido  — disse ela.

(…)

Lars Gustafsson. A morte de um apicultor.

rever a apilcudor

(…)

Neste momento, por exemplo, sinto uma dor latejante que daqui a alguns minutos me impedirá de continuar a escrever. Começa na coxa direita, bastante em baixo. Parece que um metal liquido se infiltrou na musculatura, um fio de ouro, talvez. Depois sobe para a virilha direita, e envia um feixe de fios de ouro, de uma incandescência branca, em direcção ao umbigo, à anca, à parte de trás da perna, um leque de ecos surdos desse ouro brilhante sobe até ao diafragma. Se me deito, a dor duplica. Se continuo sentado, espalha-se pelas costas. Não tem sempre o mesmo tom, as frequências e amplitudes desse ouro de brilho branco mudam constantemente, formam acordes muito bonitos, e por fim desafinam e tornam-se cortantes.

(…)

Lars Gustafsson. A morte do Apicultor

colaterais

Eu bem te pedi que fechasses a boca e nem mais uma palavra dissesses. Mas tu tinhas de espalhar a palavra e nada mais merecia a tua atenção.
Só depois percebeste que estavas a caminho do deustista.
Quando voltámos para casa ainda conseguiste abrir a boca e dar à língua para murmurar: Antes o inferno!

já mais de uma vez aconteceu…

em si mesmo

… descobrir-me a discutir comigo mesmo vendo mesmo  duas caras  na minha cabeça perdida mesmo.

1qdejunho2018e

Estão do outro lado da mesa, chegam-se à frente … …e esperam  ver como deste lado tudo fica mais pequeno. Por vezes enganam-se.

sobre o sentimento religioso

O sentimento religioso toma a forma de um enorme deslumbramento diante da harmonia das leis naturais, que revelam uma inteligência tão superior que, comparada com ela, todo o pensamento e toda a acção sistemática dos seres humanos não passam de um reflexo insignificante.

Einstein, The world as I see it, 1934

citado por John Huss em

A filosofia segundo Monty Python, Estrela Polar, Cruz Quebrada:2009

eternidade: morto para sempre

(…)
Não queria imprevistos, tinha medo de perder-se, ou de ficar doente e morrer e que o seu cadáver só fosse descoberto semanas mais tarde, quando os gatos tivessem já devorado uma boa parte dos seus restos. A possibilidade de ser encontrado no meio de um monte de vísceras putrefactas aterrorizava-o de tal modo que combinara com a vizinha, uma velha viúva com uma vontade de ferro e um coração de manteiga, enviar-lhe uma mensagem de texto todas as noites. Se não o fizesse durante dois dias, ela viria dar uma vista de olhos; para isso dera -lhe uma chave da casa. A mensagem consistia em apenas duas palavras: «Continuo vivo.» Ela não tinha obrigação de responder, mas sofria do mesmo medo e fazia-o sempre com tres palavras: «Irra, eu também.» O mais assustador da morte era a ideia de eternidade. Morto para sempre, que horror.
(…)

I. Allende; Para lá do inverno.